
Imagine caminhar por uma floresta gelada e sentir um cheiro forte de animal morto vindo do meio da neve. A cena parece saída de um filme de terror, mas é um fenômeno real causado pelo repolho-skunk oriental, uma planta que literalmente “ferve por dentro”, emite odor de carniça e é capaz de derreter o gelo ao seu redor para florescer antes de qualquer outro ser vivo da floresta. A estranheza dessa planta vai além do nome esquisito: ela desafia o inverno, engana insetos e levanta dúvidas até entre botânicos experientes.
O repolho-skunk oriental aquece seu próprio corpo como um animal de sangue quente
Esse é um dos aspectos mais perturbadores da planta. O repolho-skunk oriental (Symplocarpus foetidus) é termogênico, ou seja, consegue gerar calor internamente, elevando sua temperatura a até 20 °C acima da do ambiente. Isso permite que ele floresça ainda no fim do inverno, derretendo a neve ao redor como se tivesse um forno aceso dentro dele. Em locais onde a neve ainda cobre o chão, a planta aparece como uma cúpula roxa emergindo do branco, criando um contraste visual tão impactante quanto a reação de quem descobre o que está vendo.
O cheiro forte de podre é uma armadilha biológica calculada
O nome “skunk” (gambá) não é à toa. O repolho-skunk oriental emite um odor intenso, descrito como uma mistura de carne em decomposição e gambá molhado. Essa “estratégia fétida” não é um defeito, mas um atrativo poderoso para moscas e besouros necrófagos, que são seus principais polinizadores. Em vez de oferecer néctar, como a maioria das flores, essa planta apela ao engano: atrai insetos com a promessa de carniça e garante sua reprodução enquanto os visitantes frustrados saem cobertos de pólen.
Ele floresce quando quase nenhuma outra planta ousa brotar
Ao contrário da maioria das espécies que aguardam a primavera, o repolho-skunk oriental antecipa sua floração para o final do inverno, quando a competição por polinizadores é praticamente nula. Isso dá a ele uma enorme vantagem evolutiva, mas também o obriga a contar com táticas pouco usuais — como o calor corporal e o cheiro forte — para cumprir seu ciclo de vida em meio ao frio extremo.
Um erro comum é plantar essa espécie exótica em regiões úmidas do Brasil
Alguns colecionadores de plantas incomuns têm tentado cultivar o repolho-skunk oriental em regiões do sul do Brasil, acreditando que ele se adaptaria por causa do clima mais frio. No entanto, essa planta é nativa de pântanos gelados da América do Norte, com condições muito específicas de solo, umidade e temperatura. Fora de seu habitat natural, ela tende a apodrecer ou a não florir — e o cheiro, em ambientes urbanos ou semiurbanos, pode se tornar um problema real, incomodando vizinhos e atraindo insetos indesejados.
No interior, o nome já virou lenda: “a planta que fede e pega fogo”
Em algumas regiões, especialmente em comunidades rurais que mantêm contato com plantas ornamentais trazidas do exterior, o repolho-skunk oriental virou alvo de especulações. Histórias de que ele “pega fogo sozinho” ou “explode a neve” circulam em rodas de conversa, normalmente acompanhadas de expressões como “cruz credo” ou “isso aí é coisa do demo”. A confusão tem origem na real capacidade da planta de derreter o gelo com seu calor interno, mas se mistura ao folclore local com tons de mistério e medo.
Cultivar essa planta exige mais do que curiosidade: precisa de isolamento
Mesmo que fosse possível manter o repolho-skunk oriental em vaso, sua presença em ambientes domésticos é praticamente inviável. O cheiro exalado durante a floração é forte o suficiente para impregnar roupas, cortinas e tecidos. Em áreas fechadas, a sensação é a de que algo morreu por perto. Por isso, em seu habitat natural, ela é respeitada à distância. Já em tentativas de cultivo ornamental, especialistas recomendam isolamento completo e distância mínima de áreas habitadas.

Ela pode sobreviver até congelada — mas morre se receber sol demais
Outro detalhe contraintuitivo: o repolho-skunk oriental lida bem com temperaturas negativas, suportando até que partes de sua estrutura fiquem congeladas temporariamente. No entanto, quando exposto a muito sol direto e calor, principalmente após sua floração, ele murcha rapidamente. Isso acontece porque sua fisiologia foi moldada para aproveitar o frio, não o calor. Em termos simples: é uma planta que ama o inverno e desmaia no verão.
Sua aparência exótica esconde um ciclo vital de sobrevivência radical
Com folhas largas e espiraladas que surgem após a floração, e uma estrutura floral que lembra uma cápsula alienígena roxa, o repolho-skunk oriental é visualmente impactante. Mas o que parece apenas “diferente” para olhos não treinados é, na verdade, uma adaptação extrema a um ambiente hostil. Tudo nela — da floração antecipada ao cheiro de morte — é uma resposta biológica ao desafio de sobreviver onde a maioria das plantas ainda está dormente.
Um lembrete estranho sobre a lógica da natureza
O repolho-skunk oriental é um lembrete incômodo de que a natureza não obedece aos nossos padrões estéticos nem às nossas preferências de cheiro. Ele não quer ser bonito, agradável ou funcional em um jardim urbano. Quer apenas garantir sua existência, mesmo que isso implique em ferver por dentro, enganar insetos com odor de cadáver e brotar quando tudo ao redor ainda está congelado. É um tipo de beleza que assusta — e por isso mesmo, fascina.