
Em Venâncio Aires, um dos municípios gaúchos com maior número de imigrantes venezuelanos, o sábado, 3, foi de comemoração e esperança por conta da prisão de Nicolás Maduro, presidente autoritário da Venezuela. Segundo a Secretaria de Habitação e Desenvolvimento Social, são 1,300 mil que vivem em solo venâncio-airense atualmente. Na grande maioria dos casos, a migração ocorre por perseguição política do regime ou pela busca de uma vida melhor.
Este é o caso da família da auxiliar administrativa no setor de Tecnologia da Informação, Paola Vivas, 23. Venezuelana, veio ao Brasil junto com os pais, há quase nove anos, em 2017, quando tinha 15. “Na época, a Venezuela estava enfrentando uma crise muito forte de falta de comida, de medicamentos, de segurança, e por isso eles decidiram emigrar”, lembra.

Segundo ela, o momento é de esperança: “Com a captura do Maduro, o povo venezuelano tem mais uma vez um pouco de esperança de que o país tenha um futuro melhor, de termos uma Venezuela livre. Eu tenho a certeza que todos nós apenas queremos ter uma oportunidade de poder lutar por nosso país de uma maneira justa e legal. Basicamente, esperamos que esse seja o começo de uma nova Venezuela e que os culpados por tudo isso paguem perante a lei por tudo que fizeram para todos nós.”
Futuro venezuelano incerto
Com a saída do ditador, não há clareza sobre como será o governo venezuelano. Após a ação, Trump, em entrevista, afirmou que o momento é de transição. “Nós vamos administrar o país até o momento em que pudermos, temos certeza de que haverá uma transição adequada, justa e legal. Queremos liberdade e justiça para o grande povo da Venezuela”, disse.
Por enquanto, a vice-presidente de Maduro, Delcy Rodríguez, é quem responde pelo Executivo do país – foi empossada ontem. No entanto, seu poder, ao que tudo indica, será bastante limitado. O presidente americano chegou a dizer que, caso ela não coopere com os EUA, poderia pagar um preço até mais alto do que Nicolás Maduro.
Para o professor do curso de Relações Internacionais da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) Rafael Kirst, a preferência de Trump por Delcy indica que não deverá haver uma mudança de regime na Venezuela. “O regime permanecerá o mesmo. A estrutura de poder permanecerá a mesma. Parece que há uma esperança que, ao exercer pressão nessa nova liderança, se mude um pouco a conduta ou as ações com relação à forma com a qual a Venezuela vem conduzindo a sua política econômica e, quem sabe, no futuro, gerar novas eleições no país. Mas não me parece que isso é algo que está presente na fala de Donald Trump. Não está presente na fala a intenção de realização de eleições”, opinou, em entrevista ao programa jornalístico Folha 105 – 1ª Edição, da Rádio Terra FM, ontem.
Kirst citou, como exemplo, a opção por não colocar Edmundo González Urrutia, que alega ter vencido as eleições gerais da Venezuela de 2024, com 67% dos votos. À época, governos de Estados Unidos, Argentina, Costa Rica, Equador, Panamá e Uruguai reconheceram a vitória de Urrutia. O Brasil, por sua vez, exigiu que Maduro apresentasse as atas eleitorais que comprovassem a sua reeleição – o que nunca foi feito. Outra alternativa era definir María Corina Machado, líder oposicionista ao regime e vencedora do Nobel da Paz deste ano, como presidente do país. No entanto, a possibilidade foi rechaçada por Trump: “É uma mulher muito simpática, mas não tem o respeito que merece na Venezuela”.
Saiba mais
• Além de Maduro, também foi levada ao país norte-americano a esposa, Cilia Flores. O presidente venezuelano é acusado por Trump de narcoterrorismo e tráfico internacional de drogas.
• Segundo a denúncia estadunidense, o chefe do Executivo liderou uma estrutura criminosa no Estado, mobilizando instituições públicas e de segurança para o envio de cocaína aos Estados Unidos por mais de duas décadas.
• Se condenado, pegará pena que, no mínimo, será de 20 anos. A penalização máxima é prisão perpétua.
• Nesta segunda-feira, 5, Maduro passou pela primeira audiência pública no Tribunal Federal de Nova Iorque. Ele se declarou inocente.
• O ditador seguirá detido em território americano. A próxima visita ao tribunal será no dia 17 de março.
“Claramente contra o princípio da soberania”
A reação de lideranças internacionais após a invasão foi mista. Países como Argentina, Equador, Itália e França se posicionaram a favor da intervenção, enaltecendo o fim do regime de Nicolás Maduro. Por outro lado, Brasil, China, Espanha e a União Europeia estiveram no grupo que levantou preocupações em relação à violação do direito internacional.
O professor Rafael Kirst entende que esta divisão ocorre porque ambas as percepções têm razão. “Notadamente Nicolás Maduro é um ditador que fraudou as eleições de 2024, além de perseguir opositores políticos, ter casos de tortura noticiados e inúmeras violações aos direitos humanos. Mas, da forma que foi realizada a ação dos Estados Unidos, é claramente contra o princípio da soberania, a autodeterminação dos povos e o direito internacional”, enfatizou.
“Nós nunca tivemos na América do Sul uma ação na qual o país simplesmente executa uma ação militar de forma a capturar ou sequestrar o chefe de Estado de outra nação que entende que vai contrário aos seus interesses. Portanto, é difícil de traçar paralelos e demonstra que, de fato, estamos vivenciando um acontecimento realmente histórico.”
RAFAEL KIRST
Professor do curso de Relações Internacionais da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc)
Manifestação brasileira
Por meio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Brasil condenou a ação americana. “Os bombardeios em território venezuelano e a captura do seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável. Esses atos representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional. Atacar países, em flagrante violação do direito internacional, é o primeiro passo para um mundo de violência, caos e instabilidade, onde a lei do mais forte prevalece sobre o multilateralismo”, escreveu nas redes sociais.
Para Kirst, o tom adotado foi correto. Segundo ele, o Governo Federal tem se saído bem na defesa da soberania desde o episódio do tarifaço anunciado pelo Governo Trump em 2025. “O Brasil adotou uma postura combativa, claro que dentro das limitações, das suas condições de poder, respeitando as instituições e o direito internacional, sem esquecer da defesa de seus interesses”, destacou.
Como o país não possui a mesma força política, econômica e militar de potências como EUA e China, cabe ao Brasil defender a ordem global, com instituições internacionais que mitiguem as assimetrias entre as nações: “Não é de nosso interesse uma ordem global na qual nós temos um país que pode, porque tem mais poder, porque tem melhores condições militares, intervir em outros estados sem qualquer tipo de represália ou sanção.”
Ameaça na Colômbia
Outro ponto que tem gerado preocupação na América do Sul foi a possibilidade, levantada por Trump, de uma nova invasão no continente, dessa vez na Colômbia. O presidente estadunidense citou que o país está “doente, governado por um presidente doente, que gosta de produzir cocaína e vendê-la para os Estados Unidos”, em referência a Gustavo Petro, chefe do Executivo colombiano.
Petro tem se colocado como o principal opositor à política norte-americana no continente. Nesta segunda-feira, chegou a citar que, se fosse preciso, voltaria a pegar em armas para defender o seu país. “Jurei não tocar mais em uma arma desde o pacto de paz de 1989, mas pela pátria voltarei a pegar em armas que não queria”, publicou, em uma rede social. O presidente é ex-guerrilheiro.
Embora a troca de farpas públicas chame a atenção, o professor não acredita em uma nova intervenção. “Trump é conhecido por suas falas de improviso, o que em política internacional é especialmente perigoso. Mas eu não acredito que esse é um cenário provável. E o motivo é muito simples: diferentemente de Nicolás Maduro, que é um ditador que está de uma forma ilegal, o presidente Petro foi democraticamente eleito e seria muito difícil justificar, perante a comunidade internacional, uma ação efetiva contra a Colômbia”, concluiu.