
O mês de janeiro é um dos mais especiais em Venâncio Aires. É o momento em que a comunidade local se une em torno do mesmo significado: devoção a São Sebastião Mártir. O santo padroeiro é venerado no maior evento religioso do município, que neste ano ocorre de 16 a 20 de janeiro. São mais de 400 voluntários, entre casais festeiros, comissões e demais lideranças que se juntam para, literalmente, tirar o evento do papel. E o Grupo Folha do Mate inicia uma série de reportagens para contar a história de figuras importantes, que fazem a festa acontecer.
No dia 26 de dezembro, ocorreu na Igreja Matriz, a missa de bênção e envio das bandeiras. Logo após a celebração, elas foram para as mãos das zeladoras e zeladores, que são responsáveis por levá-las para abençoar lares, estabelecimentos comerciais e propriedades do interior. É um roteiro de fé, uma tradição mantida pela determinação de pessoas abnegadas em fazer a graça de São Sebastião chegar a quem precisa.
Quem coordena o trabalho é o Apostolado da Oração, uma rede mundial de oração, que une devotos do Sagrado Coração de Jesus e oração pelas intenções mensais do papa. A tarefa foi direcionada ao grupo, por ser também o responsável pela circulação mensal de dezenas de capelinhas de Nossa Senhora das Graças. São cerca de 70 que circulam ainda. A presidente do Apostolado é a voluntária Ilaine Henckes Hinterholz, de 67 anos.
A moradora do bairro São Francisco Xavier afirma que é na simplicidade e na oração diária, o instrumento para se viver bem e feliz. Ela conta com o apoio da vice-presidente Anila Hochscheidt, de 76, que dedicou grande parte da vida à Festa do Bastião, e que também já presidiu o grupo. Conforme registros históricos, o apostolado iniciou em Venâncio Aires no ano de 1917, mas com menores proporções e menos divulgado em comparação com os dias atuais. “Quando a gente chega a uma determinada idade, a gente vê em Deus e na oração o primeiro lugar para tudo. É uma luz que abre nossos olhos”, afirma Anila.
Entre os movimentos liderados por ela, esteve a mudança no modelo das bandeiras. Até meados de 2000, as existentes haviam sido confeccionadas pelas irmãs da Ordem da Divina Providência. Com ela à frente do apostolado, surgiu a inspiração durante uma Romaria da Santa Cruz, em Santa Cruz do Sul, de remodelar as bandeiras. Anila recorda que o tecido Oxford – conhecido pela durabilidade e maciez –, que permanece até os dias atuais, foi adquirido na Casa Culi Stertz, e, depois, cada uma foi estampada com uma imagem e nome do santo e a inscrição ‘Rogai por nós’, conforme Anila e Ilaine, na extinta Gráfica e Livraria Schmidt.

Roteiro
As bandeiras abençoadas ‘avisam’ Venâncio Aires que a festa do padroeiro se aproxima e invoca proteção àqueles que têm em São Sebastião Mártir, a devoção. Os zeladores e zeladoras passam pelas casas e estabelecimentos e, geralmente, os proprietários conduzem elas por todos os cômodos e espaços na propriedade para receber a bênção. Cada família pode escolher se recebe ou não a bandeira.
Na visita, além da entrega do fôlder contendo a programação completa da edição dos 150 anos, também são recolhidos donativos destinados à festa do padroeiro de Venâncio Aires. Os itens doados são reunidos na comunidade e, na véspera da festa, são entregues no Pavilhão de Eventos. A maioria dos produtos são utilizados para a preparação da alimentação e atividades, entre galinhada, saladas, pastel, cachorro-quente ou roda da fortuna. No final da festa, os itens não utilizados, são repassados ao Centro Promocional João XXIII, vinculado à paróquia e que distribui alimentos diariamente para pessoas em situação de vulnerabilidade.
“As bandeiras são uma tradição. Trazem saúde e bênçãos para as nossas casas, e nos ajudam nas orações. Com o envio acontecendo sempre no dia após o Natal, é um convite à festa do padroeiro”, comenta Ilaine.
300
é o número aproximado de bandeiras que vão passar pelas casas e empreendimentos comerciais até a data que começa a festa.
Devoção
A fé é o que mantém de pé a dona Leocádia Agnes. Moradora do bairro São Francisco Xavier, ela tem 90 anos e tem uma vida religiosa bastante ativa e o costume de participar de missas na Igreja Matriz. Ela é uma das mais antigas zeladoras de capelinhas em Venâncio Aires, estando ligada ao movimento há aproximadamente 50 anos. “A gente reza muito. E sempre que vem uma capelinha até aqui em casa, rezo o Pai Nosso e a Ave Maria. Me dá muitas forças”, afirma a aposentada.
Quando recebe a bandeira, costuma levar por toda a casa, pedindo por energias positivas e proteção de São Sebastião. Bastante ligada ao maior evento religioso de Venâncio, ela participou de diversas atividades como voluntária. Entre elas, por mais de 30 anos atuou na produção do cachorro-quente, também uma das marcas da festa, além do pastel do Bastião e da galinhada.

A presidente do apostolado, Ilaine Hinterholz, afirma que as famílias que ainda não receberam a visita da bandeira e desejam receber, devem entrar em contato com zeladores ou diretamente na secretaria da paróquia, localizada da região central.
A festa que uniu o casal José e Ilaine
A festa do padroeiro de Venâncio Aires uniu o casal José Agnes e Ilaine Hinterholz. Ambos viúvos, decidiram se unir e compartilhar a vida um ao lado do outro. José, de 79 anos, conta que tem ligação com a festa desde 1970. “Sou da época que sorteavam ovelhas na roda da fortuna”, brinca. Em 1977, na 101ª edição, ele e a então esposa Clarice Agnes, foram os festeiros. Na época, foram considerados o casal festeiro mais jovem da festa. E, segundo ele, foi nesta edição que surgiram as peregrinações com a imagem de São Sebastião, realizadas até hoje nas comunidades em dias anteriores à festa.
Até então, conforme José, eram feitos somente anúncios nas missas e em encontros comunitários para divulgar a programação e convidar as pessoas a realizarem doações à festa. Como a adesão estava ficando relativamente mais baixa, ele e a esposa lideraram o movimento como forma de incentivar a comunidade a ajudar. A primeira peregrinação foi na Comunidade São José, do bairro Bela Vista. “Tínhamos como doações porcos, galinhas, tudo o que se podia imaginar”, lembra. A esposa de José faleceu em 2017, em função de problemas de saúde.
Já Ilaine, não chegou a ser festeira, mas sempre teve ligação, atuando no caixa e outros setores da festa. Trabalhando em loja de calçados, não podia assumir outros compromissos. Em 2019, ela perdeu o marido, Luiz Hinterholz, também acometido por problemas de saúde.
Mas foi na festa de 2020, pouco antes do início da pandemia, que amigos dos dois começaram a sugerir o relacionamento. “Nós dois falávamos: “E por que não?”, pois nada nos impedia”, explica Ilaine.
Apesar de serem voluntários no mesmo evento, nunca tiveram contato próximo, mas nessa edição, em específico, São Sebastião deve ter aproximado os dois. “Deus escreve certo por linhas tortas. Cada um tinha seu serviço e, aos poucos, nos unimos”, comenta ela, citando a união há seis anos. Agora, os dois se dedicam ao almoxarifado da festa, coordenando a entrada de itens indispensáveis para que o evento ocorra dentro da normalidade.

A dedicação e o voluntariado de Anila Hochscheidt
“Se quer histórias, eu tenho muitas e muitas para contar. Já vivi bastante coisa”. A frase é de Anila Hochscheidt, a detentora de grandes reconhecimentos ao longo dos anos, por liderar ações importantes na Festa do Bastião.
Desde criança, sempre ouvia falar do evento. “Meus pais tinham comprado uma área de terras em Linha Brasil, perto da divisa com Linha Cecília. Nos dias de festa, o pai contava pra gente subir no morro e ficar olhando em direção à cidade, para vermos os brilhos dos foguetes, que era uma das atrações”, relembra.
Mais tarde, Anila começou a se envolver na paróquia, trabalhando na produção do pastel do Bastião, a partir de 1995. Antes dela, a responsável era Verônica Assmann, e devido aos problemas de saúde enfrentados por ela, o padre Rogério Kunrath pediu para Anila assumir o trabalho. “Não tinha experiência nenhuma e não sabia fazer massa”, conta. Como trabalhava no Hospital São Sebastião Mártir, ela pediu ajuda a uma nutricionista para a receita do pastel.
“A Verônica não queria entregar a receita dos pastéis. O padre foi até a casa dela e, com muito sacrifício, conseguiu. Ao longo dos anos, eu fui complementando algumas coisas”, menciona ela.
Anila ainda foi festeira, junto com o marido, Edmundo, em 1997. “Vejo que a fé é o primeiro passo para se viver bem em família”, acredita.
Por mais de duas décadas, ela foi a responsável pelo pastel, mas precisou se ausentar da linha de frente. Em 2025, ela retornou e trouxe de volta a ‘receita original’, com um dos melhores segredos: a dedicação e o amor pelo voluntariado. Em 2026, ela também vai liderar a produção entre os grupos. Rodeada entre a família, conta com o apoio de amigos e amigas, que se complementam nas tarefas da preparação.
Ajuda de São Sebastião
Há alguns anos, ela precisou realizar quatro cirurgias, devido a desgastes nos joelhos. Em estado grave, perdeu bastante sangue, e ficou com medo de não conseguir voltar a caminhar. “Me ‘segurei’ aos pés de Nossa Senhora e São Sebastião e rezei no período da recuperação. Em pouco tempo depois, estava superbem”, relata.