Foguinho: “Vai ficar a saudade, mas tudo na vida tem um ciclo e esse chegou ao fim.” (Fotos Alan Faleiro)
Foguinho: “Vai ficar a saudade, mas tudo na vida tem um ciclo e esse chegou ao fim.” (Fotos Alan Faleiro)

Venâncio Aires - Uma história de mais de quatro décadas chega ao fim neste mês de fevereiro em Venâncio Aires. O proprietário Milton Severo da Silva, o Foguinho, confirmou que vai encerrar as atividades da Lancheria Venâncio Aires, localizada na estação rodoviária do município.

Segundo ele, o atendimento segue no máximo até o feriado de Carnaval, período em que o estabelecimento visa liquidar o estoque. Após isso, as chaves serão devolvidas ao proprietário da estação rodoviária, o empresário Jair Lehmen.

A lancheria é o último estabelecimento comercial ainda em funcionamento além dos guichês de venda de passagens. O complexo reúne nove salas comerciais, mas viu os estabelecimentos ali instalados fecharem as portas gradualmente, acompanhando o declínio no número de passageiros e de linhas que utilizam a estação. Um contraste com os tempos da inauguração da rodoviária.

O AUGE

“Teve época em que a gente trabalhava com 11 pessoas, e mesmo assim era difícil dar conta”, recorda Foguinho. Segundo ele, a redução gradual do fluxo de passageiros impactou diretamente a viabilidade econômica dos negócios. “Hoje, o movimento em si não é mais atrativo. Não tem como investir ou fazer algo diferente.”

A lancheria funciona desde a inauguração da rodoviária, em 27 de novembro de 1983. “Foi tudo inaugurado no mesmo dia, rodoviária, lancheria e restaurante”, afirma. Ele assumiu o negócio em definitivo anos depois, após um período em que o espaço foi conduzido pelo pai, Adélio Carvalho da Silva, e pelo irmão, José Arlei Severo da Silva.

Ao longo das décadas, lembra ele, o complexo da rodoviária chegou a reunir lotérica, farmácia, mercado, loja de calçados, barbeiro, instituto de beleza e comércio de variedades. “Hoje não tem mais nada. O prédio está praticamente vazio.”. Antes da lancheria, a última sala comercial em funcionamento — ocupada por uma loja de calçados — foi desocupada há cerca de dois anos.

Foguinho aponta a pandemia como um marco decisivo. “Ali deu uma parada grande, e as linhas de ônibus começaram a diminuir bastante. Muitas não retornaram.” As enchentes de 2024 também afetaram o fluxo da estação.

ROTINA ATUAL

O proprietário Foguinho junto do único funcionário Tafu: contraste com período em que negócio chegou a empregar 11 pessoas

Nos últimos anos, o funcionamento da lancheria foi mantido de forma reduzida. “Hoje eu sirvo só lanches e bebidas. O pastel é o que mais sai”, relata. Desde a pandemia, o almoço deixou de ser oferecido e a equipe foi reduzida. Atualmente, o atendimento é feito por ele e por um funcionário. “Hoje está só eu e o Olavio Adriano Alves, o Tafu. Ele está aqui há mais de 30 anos.”

Mesmo com o movimento menor, alguns clientes permaneceram. “Tem motoristas e alguns clientes tradicionais que vem todo dia tomar café e ler o jornal”, diz.

Espaço vai deixar saudade em familiares e clientes fiéis

Valdecir Vilante conta que frequenta a lancheria todos os dias antes do trabalho

Mais do que um ponto comercial, a Lancheria Venâncio Aires se consolidou, ao longo de décadas, como um espaço de convivência e de construção de vínculos. Frequentador assíduo há cerca de sete anos, o pedreiro Valdecir Vilante, de 55 anos, relata que o principal elo com o local sempre foi a amizade com o proprietário, Foguinho, e com o funcionário Tafu.

Morador do bairro Cruzeiro, ele conta que passa diariamente pela lancheria, geralmente para tomar água ou café antes do trabalho, e afirma que sentirá falta, sobretudo, da convivência e das relações construídas ao longo dos anos.

Além do aspecto comercial, o estabelecimento acumulou histórias ligadas à rotina da rodoviária e ao vai e vem de passageiros e motoristas. “Deu para fazer muitas amizades que prevalecem até hoje”, recorda Foguinho, que destaca como o espaço também marcou trajetórias pessoais. “Começou muito namoro aqui. Muitos encontros eram marcados na rodoviária, e vários acabaram em casamento”, lembra.

A própria história da família está profundamente ligada à lancheria. Hoje, ele mora ao lado da rodoviária, mas já viveu no bairro Aviação. “Era longe e não havia com quem deixar as crianças. Para conseguirmos trabalhar, muitas noites toda a família dormia aqui”, relembra, ao recordar os anos em que ele e a esposa Naira conciliavam a rotina do negócio com a criação dos filhos Jaqueline, Henrique e Giuliane.

ENCERRAMENTO E FUTURO

A decisão de fechar, segundo Foguinho, reúne fatores econômicos e pessoais. “Estou com 65 anos e já estava na hora de parar.” Além disso, cita que o proprietário teria outros planos para o local. “Vai ficar a saudade, mas tudo na vida tem um ciclo e esse chegou ao fim. A vida continua”, finaliza.

Em relação ao futuro da estação rodoviária, o proprietário Jair Lehmen não abriu detalhes, mas disse já estar em contato com negócios de outros ramos que demonstraram interesse em investir no local, incluindo na atual sala ocupada pela lancheria. Também citou que o público da rodoviária não ficará desassistido em termos de alimentação, por haver uma lancheria na quadra ao lado da estação.

Alan Faleiro

Com foco na produção de notícias sobre negócios, contribui para divulgar o que é relevante no mundo corporativo e tudo o que mais impacta a comunidade local.

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Juan Grings

Repórter

Atento aos principais fatos que impactam a comunidade, também é produtor de programas jornalísticos da Rádio Terra FM.

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