
Venâncio Aires - Em tempos que o clima já não segue mais roteiro previsível, a irrigação nas propriedades rurais torna-se aliada de quem necessita da água para girar a produção. Graças a esse mecanismo, as culturas que antes enfrentavam resultados pouco expressivos na época do verão, agora ganham espaço, crescem e chegam com qualidade à mesa do consumidor.
Em Linha Estância Nova, no interior de Venâncio Aires, o casal Nestor Sebastião Dörr, 53 anos, e Elaine Beatris Kist Dörr, de 52, produz uma grande variedade de hortaliças. Com dedicação de oito anos na produção – antes a fonte de renda era o tabaco – eles asseguram que é o cuidado do dia a dia, aliado à inovação e investimentos, que garantem as lavouras verdes e produtivas, mesmo com a irregularidade das chuvas e ondas de calor.
Este é o primeiro ano da irrigação na propriedade, que tem cerca de um hectare dedicado à plantação de verduras. Os resultados são colhidos da terra. Pés de alface, milho, temperos, couve-flor, todos com excelente qualidade, e pés de repolho plantados no final de outubro de ano passado com cabeças que, agora, chegam aos quatro quilos. “Nunca tinha colhido repolho assim no verão. Tive um resultado parecido anos atrás, mas era no inverno, quando a temperatura era amena e tinha regularidade chuva”, comenta Nestor. “Estou bastante admirado.”

A aquisição do sistema de irrigação foi em 2025 e a instalação foi em novembro do ano passado. Ele menciona que o trabalho foi realizado em etapas. A primeira delas foi a instalação de açudes na propriedade. São três no total: em um deles fica a bomba do sistema e outros dois servem como reservas. A perfuração foi realizada com maquinário particular.
Depois, foi adquirido o equipamento em uma feira da região. Um financiamento foi realizado para dar ‘fôlego’ à rotina. “Levantamos cedo, preparamos um chimarrão e nos deslocamos. No mesmo dia, fechamos negócio. Agora, vamos pagando aos poucos, porque é difícil tirar um valor tão significativo do bolso de uma hora para outra”, diz.

A água é distribuída por sistema de aspersão por até 22 metros, duas vezes ao dia. “Fizemos um investimento alto, mas estamos muito felizes”, sintetiza.
Sonho
Em anos anteriores, a plantação na propriedade ficava expressivamente baixa nesta época do ano, conforme relata Nestor. “Tinha momentos que ficávamos sem nada para vender”, lembra. Agora, plantar e colher no verão representa um sonho que saiu do papel.

As vezes, o período entre sonhar e realizar leva tempo. Nestor revela que buscava a irrigação por alguns anos, mas primeiro decidiu se equilibrar financeiramente. “A produção de hortaliças é instável. Precisamos ir com o ‘pé no chão’, pois precisamos entrar no mercado e ainda tem horas que o valor despenca”, disse.
Ele cita a alegria de observar o desenvolvimento da plantação, que é a fonte de renda principal da propriedade. “Agora o sonho foi realizado e é só trabalhar. Sem irrigação hoje não teria como produzir.”
A esposa, Elaine, assegura que o resultado da irrigação está muito além do que era esperado inicialmente.
“Estamos satisfeitos e é bem gratificante o resulto. Muito bom”, reconhece.
Depois de colhidos, os legumes são embalados e entregues em mercados, fruteiras e à Cooperativa dos Produtores de Venâncio Aires (Cooprova), que é a principal parceira atualmente.
Saiba mais
- Conforme Nestor, quanto maior a diversidade de hortaliças, mais alta será a renda agregada com a venda da produção. “Tudo acaba somando”, pondera.
- Ele explica que já pensou em aumentar a produção de verduras, mas relata a falta de mão de obra. “Não adianta plantar muito e depois não conseguir colher”, diz.
- A plantação é de forma escalonada, em períodos diferentes, garantindo que a colheita seja contínua, evitando excesso ou falta de produção e otimizando espaço.
- A rotação de culturas, para garantir a fertilidade do solo e redução de pragas, é outro método adotado.
Sistema de inundação lidera em Venâncio
O escritório local da Emater divulgou um panorama detalhado sobre a irrigação no município. Segundo o chefe do escritório, Vicente João Fin, atualmente cerca de 201 famílias possuem sistemas de reservação de água e utilizam algum método de irrigação nas propriedades, seja por gotejamento, aspersão ou inundação.
No panorama, a capacidade instalada de irrigação no município apresenta números expressivos. São 28,7 hectares irrigados por gotejamento e 134,2 hectares por aspersão. Já no sistema de inundação, o potencial total alcança cerca de 1.900 hectares, dedicados para a cultura do arroz.
Cada método de irrigação atende a perfis distintos de cultivo. A aspersão é predominante em pastagens, fruticultura e hortaliças em geral. Já o gotejamento é mais direcionado para tabaco, morango e culturas específicas de hortaliças.
Vicente Fin observa que o comportamento do clima influencia a decisão de investimento do agricultor na irrigação. Antes de 2023 as secas causaram perdas severas no milho e tabaco, mas a regularidade das chuvas nos últimos dois anos gerou uma estagnação na ampliação desses sistemas. Entre 2023 e 2025, o aumento foi de apenas 2,7 hectares. “Quando chove normal, afasta um pouquinho o produtor de trabalhar a questão da irrigação”, analisa o chefe da Emater.
No entanto, a perspectiva é de crescimento para 2026. Através da Cooperativa dos Produtores de Venâncio Aires (Cooprova), com recursos do Governo do Estado, 13 produtores serão beneficiados com recursos, o que deve adicionar cerca de seis hectares à área irrigada. “Havendo isso, vai ter um incremento mais significativo agora em 2026”, projeta Fin.
Reservatórios
Um ponto de atenção levantado pelo engenheiro agrônomo é a qualidade para reservar a água. Embora o município tenha atualmente cerca de 700 mil metros cúbicos armazenados, muitos dos açudes de reservação são rasos. “O problema é que, na estiagem, quando os reservatórios são baixos, de até 1,5 metro, ele não dá garantias de ter água suficiente para irrigar”, alerta Fin. A recomendação técnica é que os reservatórios tenham profundidade superior a 2,5 metros.
Para o produtor, o sistema é a única garantia contra estiagens. “A planta não entrando em ponto de murcha ou estresse hídrico tem condições de se desenvolver bem”, conclui Vicente.