Venâncio Aires - Fruta doce e deliciosa, o morango é ingrediente principal em bebidas e lanches para o verão, ajudando a refrescar os dias quentes. Mas é nessa época do ano, quando a demanda é alta, que a produção despenca. Com pico produtivo entre o inverno e a primavera, o morango tem impacto negativo e não resiste a incidência do sol, retraindo o surgimento dos frutos.

Apesar dos desafios, a utilização de telas de sombreamento e sistemas de irrigação mantém a produção. A extensionista rural da Emater/RS-Ascar de Venâncio Aires, Djeimi Janisch, menciona que a Capital do Chimarrão possui 55 produtores da fruta em âmbito comercial. E foi a ampliação produtiva local que popularizou o consumo.

“O morango é uma fruta não climatérica, ou seja, não amadurece depois de colhida, apenas desenvolve a cor. Assim, quando temos a produção local, o consumidor recebe a fruta fresca, colhida pela manhã e, normalmente, entregue à tarde. O produtor pode colher a fruta no ponto ideal de maturação e o consumidor receberá uma fruta que tem potencial de durar mais tempo em casa e com mais sabor de morango”, observa a extensionista rural.

Sistema de irrigação por gotejamento é alternativa para enfrentar o sol (Foto: Júnior Posselt/Folha do Mate)

Localização

A engenheira agrônoma ressalta outro ponto importante para a produção. Venâncio Aires não é considerada uma região ideal para a produção do morango. A exceção é para a região serrana, que apresenta maior altitude. “A temperatura ideal para desenvolvimento é de 15ºC a 28ºC. Então, apesar de os produtores utilizarem principalmente variedades como Albion e San Andreas, que teoricamente produziriam o ano inteiro, a temperatura elevada é fator limitante”, constata. Esse movimento inibe a floração, reduz a doçura, tamanho da fruta e faz com que o morango amadureça mais rápido.

Djeimi Janisch indica que é nesta época que a produção do fruto é farta na Serra Gaúcha. “Apesar de os dias serem quentes as noites são frescas. Esta amplitude térmica favorece a floração e qualidade de fruta”, comenta.

Retorno

Ao longo de janeiro, a oferta do morango em Venâncio Aires ainda deve se manter equilibrada, mas já sentindo reflexos. Depois disso, deve se reduzir drasticamente a produção. “E reinicia quando as temperaturas ficam mais amenas para estimular novamente a floração. Isso se dará no final de abril a maio”, prevê Djeimi.

Ela complementa que cada vez mais a Emater tem trabalhado com produtores na realização de testes de variedades e tipos de mudas que permitam uma produção mais precoce, pois as variedades tradicionais têm o pico produtivo entre setembro e novembro.

Outros impactos

O calor e a umidade, segundo informa Djeimi, prejudicam o morango também no âmbito sanitário, favorecendo doenças, como podridões. A condição das últimas semanas de dezembro prejudicou nesse sentido.

O calor também afasta abelhas, importantes para a polinização e boa formação da fruta. Ainda, dificulta a translocação de cálcio e boro, que são dois nutrientes que garantem a firmeza e boa formação. Neste período também há ataque de pragas, como a Drosphila. “Trabalhamos sempre com os produtores no propósito de oferecer morango seguro e de qualidade. Por isso, os produtores trabalham com monitoramento, iscas para captura de insetos, produtos biológicos, sanitizantes para prevenção destes problemas”, explica.

Como amenizar

Entre as ações para minimizar os impactos, produtores precisam ficar atentos ao fornecimento de água, reforçando aplicação de cálcio e boro. Manter a vegetação sob bancadas também pode colaborar. Djeimi Janisch complementa que a utilização de telas termorefletoras é paliativa desde que seja móvel, ou seja, colocado somente nas horas mais quentes.

“Por ser uma fruta versátil, que pode ser consumida in natura, utilizada em sobremesas, saladas, sucos, drinks e decoração de pratos, a demanda por morangos é sempre alta. Mas, passadas as festas, a demanda diminui drasticamente.”

DJEIMI JANISCH
Extensionista rural da Emater

Cenário produtivo

  1. A extensionista rural da Emater/RS-Ascar de Venâncio Aires, Djeimi Janisch, detalha que o município apresenta um cenário produtivo bastante desenvolvido. São 55 produtores comerciais, agregando entre 100 a 10 mil plantas. “São produtores que tem no morango uma diversidade de produtos da feira ou plantam para consumo e comercializam o excedente até quem tem no morango a renda principal”, explica a engenheira agrônoma.
  2. Para otimizar área e os trabalhos do dia a dia, aproximadamente 95% do morango de nível comercial no município é cultivado em sistema fora do solo. Dessa forma, não é preciso atuar com a rotação de área de plantio. Esse modelo ainda permite que o produtor possa trabalhar em pé, facilitando o manejo e tratos culturais.
  3. A Capital do Chimarrão soma aproximadamente 1,5 hectare de área dedicado à produção do morango. Conforme análise da Emater, a cada ano, novos produtores ingressam na atividade.
  4. Outro dado revela que em 65% das propriedades, são mulheres que ‘tocam’ desde as etapas da produção até a comercialização. Segundo Djeimi Janisch, isso acontece em função de o morango não ser um trabalho pesado, mas que exige técnicas específicas de manejo.

Família de Picada Treib produz 2,3 toneladas em 2025

A produção de morangos acompanha o casal Nelson Müller, de 63 anos, e Marlene Müller, de 62, há cerca de oito anos, em Picada Treib, região de Linha Tangerinas, interior de Venâncio. O plantio iniciou no chão, com 300 pés em três canteiros, como aposta para incrementar a renda. Após, construíram bancadas para facilitar a rotina. A busca por conhecimento norteou os primeiros passos e, com técnicas de manejo adequadas e investimento constante, alcançaram entre 4,8 mil a 5 mil pés em 2025.

Ambos aposentados, encontraram na produção uma forma de não ficarem parados. “A produção tem altas e baixas. Em um mês tem muito. No outro não”, detalha Marlene.

Apesar das indas e vindas, a produção foi positiva no ano passado. Foram comercializados 2,3 toneladas. O pico produtivo foi novembro, com mais de 450 quilos vendidos. Já a maior retração foi observada entre março e maio. “O morango não quer muito frio e nem muito calor. Agora, por exemplo, não tem tempo para crescer e logo fica maduro”, comenta Nelson, que conduz a venda dos morangos.

Casal de Picada Treib tem produção entre 4,8 mil e 5 mil pés (Foto: Júnior Posselt/Folha do Mate)

Ele afirma que não tem clientes fixos, mas toda a produção sempre tem destino. “Vou oferecendo para pessoas na rua, no comércio. Tem alguns que reservam, pois conhecem a qualidade do nosso moranguinho”, diz. São, atualmente, 11 bancadas, cada um com três carreiros, com as variedades San Andreas, Albion e Valentina.

“Nos primeiros anos, a produção é basicamente destinada para pagar dívidas. Depois, vamos direcionando para manutenção”, explica. O olhar atento é direcionado ainda para morango sem agrotóxicos. A produção é mantida com sistema de irrigação por gotejamento, com água oriunda de um açude na propriedade. Quando há necessidade, são inseridos sulfatos e micronutrientes para ajudarem no desenvolvimento da planta e, consequentemente, do fruto.

O casal ainda produz alface, repolho, couve, feijão, aipim, milho, além de criarem porcos e galinhas para subsistência.

Morangos são produzidos sem uso de agrotóxicos (Foto: Júnior Posselt/Folha do Mate)
Júnior Posselt

Repórter

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