
Venâncio Aires - Seja nas missas ou nas celebrações pelas comunidades, a animação musical impulsiona a caminhada de preparação para a Festa de São Sebastião Mártir. Para além do rito litúrgico, as canções revigoram sentimentos e servem como uma forma de expressar adoração e gratidão. Esse trabalho, realizado há muitos anos, tem protagonismo nas peregrinações, na Missa Campal e na tradicional procissão por meio da Banda do Bastião, formada majoritariamente por jovens da paróquia.
Quem coordena o grupo é o voluntário Felipe Borges, de 34 anos. “Sempre digo que não sou músico profissional, mas sei tocar”, brinca. Ele é morador de Linha Coronel Brito, interior de Venâncio Aires, e desde criança, sempre teve ligação com a Igreja Católica. A inspiração para cantar e tocar surgiu em participações de Telmo Kist na Comunidade Nossa Senhora das Graças, de Linha Ponte Queimada, que Felipe frequentava. “Achava muito bonito ver ele se apresentando”, comenta.
O primeiro violão veio logo após a festa da Primeira Comunhão, quando comprou o instrumento com presentes que ganhou em dinheiro. Mas com o violão na mão, tinha um impasse: saber tocar. A oportunidade veio em 2016, quando participou de um retiro e viu outras pessoas tocando. “Coloquei na minha cabeça que ia aprender”, lembra Felipe. Nesse ano, se inscreveu em um curso de música promovido pela Paróquia São Sebastião Mártir. O professor foi Paulo Schonarth.
Engenheiro industrial, Felipe é casado com a professora Júlia Neumann, 29. Em 2018, os sogros dele, Mário e Silvia Neumann, foram festeiros e, por isso, passou a acompanhar com mais frequência as missas da trezena, peregrinações e outras celebrações.
Passados alguns anos, com a pandemia de Covid-19 foram impostas diversas limitações, inclusive dentro da programação da festa. Por isso, o grupo de jovens foi convidado, em 2020, pelo então pároco Rodrigo Hillesheim a assumir o trabalho de animação, já para a festa de 2021. “Fomos desafiados a assumir esse trabalho e comandar, inicialmente, as peregrinações. E hoje tem edições com mais de 10 jovens, tocando violão, contrabaixo, bateria e até gaita. É um trabalho de doação para a nossa festa”, explica.
Novidades para o sesquicentenário
Para a edição de 2026 da Festa de São Sebastião Mártir, Felipe Borges menciona que se reuniu ainda em setembro com o pároco Roque Hammes para alinhar os cantos das peregrinações. Alguns deles também serão tocados durante a missa campal e outras celebrações. “Durante as peregrinações, a gente consegue fazer uma espécie de ensaio para entregarmos um ótimo resultado durante a festa”, enfatiza ele.
Como a festa chega a um período marcante, 150 anos, novidades também integram a parte musical. Felipe diz que foram preparados três músicas para embalar as programações, além das tradicionais. Uma delas, entregue ainda em abril, é de autoria do músico Paulo Schonarth, e relata pontos importantes do sesquicentenário da festa.
Outra, foi composta pelo próprio Felipe, após conversa com o padre Roque, focando na religiosidade da festa e adoração da comunidade local a São Sebastião. Ambas já estão sendo apresentadas nas missas da trezena e da peregrinação. Uma terceira será entregue por Andy Ruwer, com estilo festivo.
Doação
Felipe Borges afirma que ser voluntário da Festa do Bastião denota um grande significado. “É uma devoção imensa que temos ao nosso padroeiro e a gente se doa para fazer a festa acontecer. E se olharmos para trás, são 150 anos de doação de centenas de voluntários. É a doação do povo de Venâncio Aires que move a festa”, sustenta.
Nascimento na véspera
- Felipe e Júlia têm uma filha: Maria Luíza, de 7 anos. O casal também aguarda com bastante ansiedade e chegada de mais um filho, Danilo, com nascimento previsto para junho deste ano.
- Coincidência ou não, a primogênita nasceu no Hospital São Sebastião Mártir (HSSM) no dia 17 de janeiro de 2019, véspera da 142ª Festa de São Sebastião, que iniciou no dia 18.
- Desde então, ela virou companheira do pai nas cantorias. Aos 3 anos ganhou um ‘violãozinho’. Agora, ganhou um violão maior, e deve iniciar aulas de violão no próximo ano.

Ex-festeiros, Paulo e Marili compuseram hino que é símbolo da festa
“Viva São Sebastião! Salve o nosso padroeiro. Derrame suas bênçãos, sobre esse povo caminheiro”. A história, a adoração e a gratidão a São Sebastião Mártir se unem no hino escrito pelo casal Marili e Paulo Schonarth, com 67 e 70 anos, respectivamente.

Eles relembram que em 1988, quando Claire Reckziegel presidia a Paróquia São Sebastião Mártir, foi lançado um concurso para escolher um hino para a festa. “Até então não existia uma música fixa. Sempre adaptávamos os existentes para a festa”, detalha Paulo.
Com a iniciativa, três compositores apresentaram sugestões. Além deles, o professor Ivo Astor Seidel e Telmo Kist compuseram um hino. Com análise de uma comissão julgadora, foi eleito o hino de Paulo e Marili, que permanece até hoje animando os fiéis. “Grande parte da comunidade sabe cantar ou já ouviu falar. Tem uma letra simples e ‘pegou’ muito fácil”, diz Marili, responsável pela composição da última estrofe, considerada por Paulo, a parte “mais poética do hino”.
A letra e a melodia foram gravadas, em CD, somente em 2003, na 127ª edição, quando o casal foi festeiro, junto com José e Eva Frölich e Luiz e Eloisa Konzen. A gravação foi em um estúdio da Diocese de Santa Cruz do Sul, em Santa Cruz.
“É emocionante ver uma multidão de 12 a 15 mil pessoas, que sempre costuma participar da missa campal e da procissão, cantando um hino escrito pela gente”, revela Marili. “É um hino que já está na história, sentimos uma emoção muito grande”, complementa Paulo.

Experiência com festeiros
- Marili Schonarth enaltece a oportunidade de ter sido escolhida festeira, junto com o esposo Paulo, e deixar o nome registrado na história da festa. Ela lembra de momentos importantes da caminhada.
- “Só sendo festeiro é que a gente conhece a realidade. Sempre tivemos uma receptividade muito boa por parte das comunidades, que nos recebiam muito bem, com muito respeito. Foi um ano de muito trabalho, mas que valeu a pena”, considera.
- Como novidades incorporadas na edição que foram festeiros, esteve a disponibilização de um ônibus para conduzir lideranças, coroinhas e festeiros para as comunidades às peregrinações nos bairros e interior. Até então, cada um se deslocava por conta própria.
Festa do Bastião e as muitas histórias
Falar sobre a Festa de São Sebastião Mártir é voltar no tempo e entender que nem tudo funcionava como nos dias atuais. Paulo e Marili, casados há 43 anos, acompanharam muitos movimentos do evento. Músico profissional, ele conta que o primeiro contato com a parte musical da festa ocorreu em 1984, quando encontrou Nestor de Azeredo – citado como um dos maiores animadores das peregrinações das festas – com um violão na Igreja Matriz. “Me convidou para tocar e aceitei. Peguei meu violão e saímos”, conta.
Naquela época, as peregrinações eram realizadas a pé entre as comunidades, sobretudo, nos bairros. Festeiros e fiéis carregavam o andor – estrutura ornamentada com flores e uma imagem de São Sebastião – nos ombros, caminhando por quilômetros de distância. “Atravessávamos macegas e valetas”, lembra Paulo. O povo, na procissão, cantava e batia palmas no trajeto. Para os músicos, não existia nem microfone. Era preciso aumentar a voz para os fiéis ouvirem os cânticos.
Outro animador citado pelo casal é Arnildo Bento da Silva, que sempre se vestia de branco. Nas procissões, inclusive, os músicos percorriam todo o trajeto, inicialmente com somente dois microfones, embalados pelo sacolejo do caminhão.
Foi por causa das dificuldades em garantir uma boa qualidade de som, que foi montado o palco fixo na procissão. Esse movimento fez surgir a missa campal ao lado da Igreja Matriz, com a primeira realizada em 1998. Na época, os festeiros eram Sigesmundo e Gertrudes Wilk, Heitor e Julita Gauer e Eva e Nestor Heinen.
Problema
Na primeira missa campal, segundo resgate feito por Paulo e Marili, o palco e as caixas de som estavam voltados de frente ao Hospital São Sebastião Mártir. Devido ao som alto, surgiram reclamações da casa de saúde e, desde então, passou a ser realizada nos moldes atuais, com o palco virado de frente para o gramado. Desde a primeira, é a Fox Som é a responsável pelo sistema sonoro.

Toque do silêncio
- Desde 1989, a convite do padre Elo Back, pároco na época, Paulo Schonarth é o responsável por fazer o ‘toque do silêncio’, que antecede a missa campal e a procissão.
Letra do hino de São Sebastião Mártir
Há muito tempo atrás, no antigo Império Romano,
Dioclesiano era imperador, opressor e grande tirano.
Foi lá que um valente soldado, conhecido por Sebastião,
contrariou o imperador, pra viver como cristão.
Viva São Sebastião! Salve nosso padroeiro.
Derrame suas bênçãos, sobre este povo caminheiro.
Sebastião nos deu o exemplo, de vivermos como cristãos.
Amou os fracos e oprimidos, de todos foi um irmão.
Foi justo e firme na fé, sofreu e foi prisioneiro,
castigos e martírios, morreu em 20 de janeiro.
Invocamos São Sebastião, com fé, fervor e esperança.
O povo precisa saúde, paz, justiça e segurança.
No nosso peregrinar, zele pela comunidade.
São teus fiéis que pedem: organização e unidade.