Solange Schulz mora nas proximidades do orelhão e relembra tempos passados, quando dependia da telefonia pública para se comunicar com a família (Foto: Júnior Posselt/Folha do Mate)
Solange Schulz mora nas proximidades do orelhão e relembra tempos passados, quando dependia da telefonia pública para se comunicar com a família (Foto: Júnior Posselt/Folha do Mate)

Venâncio Aires - Os orelhões marcaram um período muito diferente que o atual. Quando o sinal de telefone era completamente escasso e os telefones não tinham funcionalidades como hoje, os aparelhos públicos eram a opção para manter contato com a família ou resolver uma série de questões. Mas ao longo dos anos, com a ascensão tecnológica, os orelhões ficaram para trás e, muitos deles, sucateados pelo tempo.

Na metade de janeiro, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), anunciou a extinção do sistema neste ano. A retirada acontecerá gradualmente porque, em 2025, encerrou a concessão do serviço de telefonia das cinco empresas responsáveis pelos aparelhos, firmada em 1998. Dessa forma, as mantenedoras deixam de ter obrigação legal de manter a infraestrutura.

Em janeiro de 2001, a Folha do Mate noticiava a ampliação das linhas telefônicas em Venâncio Aires, que contabilizava, à época, 229 telefones públicos. A Companhia Riograndense de Telecomunicações (CRT) – posteriormente incorporada pela Oi – era a responsável pelo serviço. Vinte e cinco anos depois, em 2026, a Capital do Chimarrão conta apenas com dois orelhões ativos, segundo a Anatel, ambos mantidos pela Oi.

Conforme apurado pela reportagem, um dos equipamentos fica em Linha Santana, no Vale do Sampaio, mas está em manutenção. O outro está em Vila Deodoro e foi destaque no programa Folha 105 – 1ª Edição, da rádio Terra 105.1 FM, dessa quinta-feira, 29. O orelhão está em pleno funcionamento e o sinal é via satélite. A qualidade da ligação é excelente e, diferente dos equipamentos ‘tradicionais’, não é cobrado nenhum valor para efetuar ou receber chamadas. O número do equipamento é (51) 3741-5323, apesar de um pouco apagado, está fixado no telefone.

Orelhão em Vila Deodoro é o único ativo em Venâncio e opera via satélite (Foto: Júnior Posselt/Folha do Mate)

Dias contados

A moradora de Vila Deodoro, Solange Schulz, 66 anos, é praticamente vizinha do orelhão – que fica perto da entrada da capatazia do terceiro distrito de Venâncio Aires – comenta que o equipamento raramente é utilizado. “Quase nada. Esses dias tivemos um problema depois de um vendaval. Procuramos sinal em vários celulares e nem lembramos do orelhão, que poderia ter sido utilizado”, relata.

Na localidade, o sinal telefônico depende majoritariamente da internet de fibra ou via rádio. “Se termina a luz ou cai a internet, ficamos sem nada. Eu ainda consigo pegar um pouco do sinal da Vivo, mas bem fraco e em poucos lugares dentro de casa. Aí aviso o pessoal: ‘Tô sem sinal, não adianta ligar’”, comenta Solange. “É tão pouco usado que ninguém lembra. Antigamente era o único meio de comunicação. Hoje, a gente passa por ele e nem pensa em usar.”

Ela recorda os tempos que era estudante na área urbana de Venâncio Aires e o orelhão era o meio de comunicação com a família. “Estudei 17 anos em Venâncio. Lá tinha central telefônica, mas era difícil conseguir ligação. Então eu usava os orelhões para falar com o pai ou a mãe. Era com fichinha. Depois vieram os cartões, mas no início eram só fichas mesmo.

Com o trabalho de apuração, localização e funcionamento do orelhão pela reportagem, Solange Schulz enalteceu que, agora, a comunidade tem à disposição, apesar de estar com dias contados, uma forma extra de comunicação.

“Muitas vezes a gente não dá valor ao orelhão. Agora que vão tirar, talvez a gente sinta falta, porque, quando não tem sinal de celular ou internet, essa seria uma opção.”

SOLANGE SCHULZ
Moradora de Vila Deodoro

“Ninguém usa”, dizem moradores sobre o orelhão em Deodoro

Os irmãos Marcelo e Mauri Jaeger, de 40 e 59 anos, respectivamente, que moram nas proximidades do telefone público, mencionam que praticamente ninguém utiliza o serviço. “Nunca vi alguém usando”, diz Mauri.

Marcelo complementa que a modernização no sistema de comunicação diminuiu a demanda pelos orelhões. “Hoje em dia isso ‘já era’. É celular e internet. Aqui, o sinal é fraco, depende da internet. Quando a internet cai, não funciona nada.” Sobre a retirada, considera o equipamento como uma forma adicional de efetuar ou receber ligações em situações adversas. “Seria bom ter como recurso quando não há outra opção.”

Irmãos Marcelo e Mauri afirmam que o telefone público é opção extra para realizar ou receber ligações em situações adversas (Foto: Júnior Posselt/Folha do Mate)

Panorama

  1. No Brasil, ainda são 30 mil telefones de uso público, mas a rede já teve 1,5 milhão de terminais.
  2. Cerca de 9 mil telefones permanecerão ativos em cidades onde não existe ao menos o sinal 4G para a rede móvel. Nesses locais, a ‘aposentadoria’ está marcada para o final de 2028.
  3. Em território gaúcho, conforme a Anatel, são 59 telefones públicos ativos. Há, ainda, 74 em manutenção e 22 sem informação sobre a situação atual, totalizando 155. O dado é de dezembro de do ano passado. Os aparelhos são mantidos por duas operadoras: Oi e Claro.

1972
foi o ano de lançamento dos Telefones de Uso Público (TUPs), conhecidos como orelhões, no Brasil. O primeiro orelhão do Rio Grande do Sul foi instalado em Porto Alegre, na Praça da Alfândega, em 1973.

Novos olhares

  • Em contrapartida ao fim dos orelhões, a Anatel disse que as empresas precisarão direcionar investimentos para a infraestrutura da telecomunicação. As operadoras se comprometeram para trabalhar na implantação de fibra óptica, instalar antenas em áreas sem cobertura – expandindo a rede móvel – ampliar conectividade em escolas públicas, entre outras ações.
Júnior Posselt

Repórter

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