Márcia, o filho Júnior e Vanderlei agradecem diariamente pelas graças alcançadas (Foto: Júnior Posselt/Folha do Mate)
Márcia, o filho Júnior e Vanderlei agradecem diariamente pelas graças alcançadas (Foto: Júnior Posselt/Folha do Mate)

Venâncio Aires - Quem caminha pelas ruas de Venâncio Aires e ergue os olhos para a Igreja Matriz não enxerga somente uma estrutura arquitetônica imponente que toca o céu, mas um símbolo de gratidão. Conta a história, que a formação do município está entrelaçada com uma promessa de Brígida Joaquina do Nascimento, após os dois filhos terem ido lutar na Revolução Farroupilha. Ela prometeu que doaria terras para a construção de uma igreja, caso ambos voltassem vivos. E assim aconteceu. Foi o agradecimento de Brígida ao santo padroeiro que fez ‘nascer’ a Capital do Chimarrão.

Mas, ao passar do tempo, a devoção a São Sebastião Mártir se multiplicou e cresceu cada vez mais. A Igreja Matriz é lugar para pedir bênçãos e de renovar esperanças. E falando em esperanças, elas quase não existiam mais na vida do casal Márcia Becker e Vanderlei Lacerda, de 51 e 48 anos, respectivamente, moradores do Loteamento Scienza. Em 2012, depois de três tentativas frustradas para engravidar, Márcia recorreu ao padroeiro e pediu ajuda. “Eu já estava com 37 anos e não tinha conseguido engravidar. Se eu ia esperar muito, poderia correr riscos pela idade. Mas a fé nunca desapareceu”, conta.

Ela foi até a Igreja Matriz e fez uma prece. Caso conseguisse engravidar, levaria o filho para as procissões, assim como ela e o marido também participariam. Caminhar o trajeto com os pés descalços, por sete anos, também fez parte da ‘conta’ com São Sebastião. Um tempo depois, veio a surpresa da gravidez. “São Sebastião é muito poderoso, mas se a gente não tem fé, não adianta”, garante Márcia.

Hoje, o esperado e sonhado filho tem 13 anos. O Júnior – ou o ‘Juninho’, como é chamado pela mãe e o pai –, aprendeu que agradecer todos os dias pela vida faz a rotina melhor. A cada amanhecer, a família agradece por mais um dia. Antes de dormir, uma oração para Nossa Senhora Aparecida. “Eu acredito muito, porque quando a gente precisa, rezar sempre nos ajuda”, sustenta o filho.

Além de São Sebastião, Júnior Eduardo Lacerda e família são devotos de Nossa Senhora Aparecida (Foto: Júnior Posselt/Folha do Mate)

Em forma de agradecimento, Márcia assumiu recentemente o papel de zeladora da capelinha que passa por cerca de 20 casas do loteamento. Há cerca de dois anos também passa pelas residências a bandeira da Festa do Bastião. “Acabei fazendo mais um voto com São Sebastião, mais uma forma de agradecer”, resume.

Saúde

Quando Júnior tinha 3 anos, o pai Vanderlei passou a enfrentar graves problemas com a depressão. Entre medicamentos e rotina agitada, sentiu a ajuda de São Sebastião, segundo ele, “tocar a pele”. “Estava de carro, passei sinal vermelho e não enxergava mais nada. Estava em surto. Entrei na Igreja para pedir ajuda e, quando me ajoelhei na frente da imagem de São Sebastião, senti uma mão no meu ombro e uma voz dizendo para mim não desistir”, recorda. Depois disso, a caminhada foi de recuperação.

Santo casamenteiro?

  • Considerado o padroeiro contas pestes, epidemias, fomes e guerras, na história de Márcia e Vanderlei, São Sebastião, por meio da festa em homenagem a ele em Venâncio, é casamenteiro.
  • Eles se conheceram na Festa do Bastião quando ele tinha 18 anos e, ela, 22. “Passamos a conversar a partir dali e namoramos por um ano. Depois, ele veio morar comigo e estamos juntos até hoje”.

Saiba mais

  • Quando Brígida do Nascimento oficializou a doação de dez mil braças quadradas, em torno de 4,8 hectares, para a edificação da capela em São Sebastião Mártir, no ano de 1864, ela estabeleceu um prazo de 10 anos para a conclusão.
  • Com o feito sendo considerado o ‘marco zero’ de Venâncio, além de uma quadra para o templo e outra para a praça, Brígida loteou e vendeu a área restante em terrenos menores, surgindo a área urbana.
  • A primeira festa que se tem nos registros oficiais ocorreu em 1876, mas bastante diferente dos moldes atuais.

A recuperação depois de um grave acidente

Para a moradora do bairro Bela Vista, Camila Guterres Dickel, de 31 anos, foi São Sebastião Mártir quem ajudou ela a se levantar e viver uma nova vida após um grave acidente de moto no dia 3 de agosto de 2014. Ela era caroneira de uma motocicleta conduzida pelo então noivo, que teve a frente cortada por um automóvel. Com a colisão, segundo ela, o companheiro morreu no local.

Camila foi transferida ao Hospital São Sebastião Mártir (HSSM), onde passou por cirurgias. As marcas permanecem no corpo até hoje, além dos 16 parafusos metálicos na perna esquerda. Ela ficou aproximadamente um ano deitada – por não conseguir caminhar – e a recuperação se sucedeu com cadeira de rodas e muletas.

Foi então que decidiu ‘conversar’ com São Sebastião. “Fiz uma promessa que, caso eu conseguisse voltar a caminhar normalmente, participaria das procissões”, lembra. E o santo atendeu o pedido e, desde 2017, ela marca presença na procissão, considerada ponto alto da programação da festa.

Na caminhada, Camila conta com a companhia do filho Elias, de 6 anos, do companheiro Adriano Hinterholz, de 36, e, pela primeira vez, do filho mais novo, Caio, de 10 meses.

Camila e os filhos Elias e Caio (Foto: Júnior Posselt/Folha do Mate)

Devoção de sete décadas

  • Dos 150 anos da Festa de São Sebastião, há pelo menos sete décadas, dona Tereza de Souza Reis, com 94 anos, ouve falar ou participa do maior evento religioso de Venâncio. Moradora de Linha Ponte Queimada, é natural de São Jerônimo e reside em Venâncio Aires desde os 20 anos.
  • Devota de São Sebastião Mártir, ela sempre foi bastante ativa nas programações da festa, mas a ligação se intensificou quando uma das netas precisou fazer uma cirurgia de carne esponjosa. Como o procedimento foi um sucesso, ‘garrou’ ainda mais devoção ao santo.
  • Uma das marcas de dona Tereza, e é difícil não vê-la usando, é o vestido vermelho que adquiriu após a promessa ter tido resultado positivo. A netinha também recebeu uma vestimenta vermelha.
  • “Já fiz promessas para coisas muito difíceis e nunca aconteceu nada de ruim”, conta. A reza é diária e é feita em frente à imagem de São Sebastião em casa. Quadros de santos espalhados pela parede da casa guiam o dia a dia.
Dona Tereza é devota de São Sebastião (Foto: Júnior Posselt/Folha do Mate)
Júnior Posselt

Repórter

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