
Venâncio Aires - Na preparação dos devotos à Festa de São Sebastião Mártir, atividades tradicionais ocupam um espaço tão relevante quanto as orações. Além das missas da trezena, que reúnem fiéis nas treze quintas-feiras que antecedem o início do evento, as peregrinações se destacam como ponto alto da programação. Ao levar a imagem do padroeiro para diferentes localidades, o evento descentraliza a bênção e engaja comunidades das áreas urbana e rural em momentos de adoração.
Conforme a tradição, durante o período das peregrinações, as comunidades anfitriãs são simbolicamente adotadas como sede da Paróquia São Sebastião Mártir.
Um desses encontros ocorreu na noite de segunda-feira, 12, na Comunidade São Martinho de Lima, no bairro Cidade Nova. A 15ª peregrinação desta edição foi realizada em conjunto com a Comunidade Santa Rita de Cássia, do bairro Gressler. O andor com a imagem de São Sebastião foi conduzido por lideranças da Comunidade Nossa Senhora Aparecida, de Linha Tangerinas, que havia sediado o momento anterior ao lado da Comunidade São José, do bairro Bela Vista.
A chegada da imagem foi marcada por emoção, com os fiéis entoando o hino ‘Viva São Sebastião, salve nosso padroeiro’. Após o acolhimento da comunidade anfitriã, o salão se transformou em espaço sagrado, ocupado por pessoas de diferentes origens e crenças, unidas por promessas e gratidão. A celebração foi conduzida pelo padre Zeno Antônio Graeff e pelo diácono Roque Schroeder. Após os ritos da liturgia e da eucaristia, os participantes vivenciaram um dos momentos mais aguardados: a distribuição dos pães e a retirada das flores que ornamentam o andor.
Conexão e histórias de fé
A entrega dos pães abençoados e a partilha das flores é uma tradição que atravessa gerações. Para Ereni da Silveira Bretana, de 70 anos, o gesto carrega um significado de cura. “O pão de São Sebastião eu vou levar para o meu marido, que está acamado em uma clínica em Santa Cruz do Sul”, revelou a moradora do bairro Gressler. Devotos, o casal sempre rezou unido, mas a saúde debilitada do esposo exigiu cuidados na cidade vizinha. “Se não fosse a nossa fé, não teríamos superado tudo o que passamos”, afirmou Ereni.

A ministra da Comunidade Santa Rita de Cássia, Liria Teresinha dos Santos Severo, de 74 anos, também garantiu o pão e alguns ramos do andor. “São Sebastião ilumina meu caminho e me concede muitas graças. Apesar da idade, ainda ajudo nas coletas para a festa e caminho bastante. Ele sempre me fortalece”, relatou.

Liria guarda memórias da festa desde a infância, quando as celebrações ocorriam ao redor da Igreja Matriz. “Íamos com meu pai. Era lindo. Lembro que, pelo calor de janeiro, vendiam muita melancia e as cascas ficavam pelo chão”, recorda. As flores colhidas por ela são destinadas ao altar que tem em casa, junto à imagem de Nossa Senhora de Fátima.
A devoção se estende desde vizinhos até familiares. Alexsandra Boschi Staub, de 41 anos, faz questão de levar as flores para a bisavó do marido, que tem 95 anos. Já Celita Henckes, de 76 anos, moradora do bairro Brígida, acompanha o filho André Henckes, uma das lideranças da festa, nas caminhadas. Ela coletou pães para levar a vizinhas que, segundo ela, “são de mais idade” e que não conseguem comparecer às missas. “É uma forma de ajudá-las a se aprofundarem na fé”, explicou.

O rito das flores: após cada peregrinação, a comunidade anfitriã é responsável por ornamentar o andor com flores, permitindo que os fiéis do dia seguinte retirem os ramos abençoados.
Saiba mais
- As peregrinações começaram em 1977, na 101ª edição da festa, sob a liderança dos festeiros José e Clarice Agnes.
- O movimento surgiu para levar o santo às comunidades e buscar contribuições em uma época de baixa adesão às doações.
- A primeira comunidade a receber a peregrinação foi a São José, do bairro Bela Vista