
Rio Grande do Sul e Venâncio Aires - A prisão de um indivíduo de 24 anos, realizada na tarde de terça-feira, 20, no Bairro Brands, pode ter impedido que mais uma mulher entrasse para as estatísticas das vítimas de feminicídio no Rio Grande do Sul. Dados da Secretaria de Segurança Pública (SSP) mostram que sete mulheres foram mortas nos primeiros 20 dias do ano. Para se ter uma ideia da gravidade que isso representa, em todo o mês de dezembro passado foram seis casos no RS. Em todo o ano passado, 79 mulheres foram vítimas de feminicídios no estado.
A última morte foi registrada na tarde de terça-feira, no local conhecido como ‘Beco do Sadi’, em Sapucaia do Sul. A vítima é uma adolescente de apenas 15 anos. Seu corpo foi localizado pela Brigada Militar, dentro do banheiro da casa do ex-companheiro, de 24 anos. Peritos do Instituto-Geral de Perícias (IGP) confirmaram que ela foi morta com golpes de faca no rosto, pescoço e nas costas.
Uma irmã do suspeito disse que recebeu uma ligação e foi até a casa dele, mas não o encontrou. Ainda conforme o relato da mulher, o irmão disse que teve uma discussão com a ex e mencionou ter ‘feito besteira’. O suspeito foi preso ainda na terça-feira, em uma obra, próximo do local do crime.
Flagrante
A prisão no bairro Brands foi feita por volta das 17h10min. Conforme o capitão Maicon Barbosa Crumenauer, a vítima relatou aos policiais militares que havia sofrido agressões físicas e ameaças de morte por parte de seu ex-companheiro, que não aceitava o fim do relacionamento. A mulher declarou que o agressor invadiu a sua privacidade, lhe desferiu um tapa no rosto e tomou o seu celular.
Durante a abordagem, os policiais localizaram o telefone da vítima na cintura do suspeito. O indivíduo de 24 anos foi preso em flagrante e apresentado na Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento (DPPA), onde o delegado plantonista o autuou em flagrante e determinou o seu encaminhamento à Penitenciária Estadual de Venâncio Aires (Peva). Este ano a Brigada Militar prendeu quatro homens pelo crime de violência doméstica.
Sinais
Um gráfico produzido pela Delegacia de Polícia da Mulher de Londrina (PR) mostra os estágios de um relacionamento abusivo. Tudo começa com ‘falas’ que diminuem a mulher, piadas ofensivas e menosprezos. Na sequência, a mulher passa a ser culpada pelos problemas familiares, é ofendida e humilhada.
O próximo estágio é o fim da vida social, o ciúme doentio e o sentimento de posse. A mulher passa a ser proibida de sair com amigas e fazer simples caminhadas, por exemplo. “Mas o homem segue sua vida normal. É a mulher que não pode fazer mais nada e tem que se dedicar exclusivamente aos filhos. Ficar em casa”, diz uma vítima de violência doméstica, que tem sua identidade preservada.
Paralelo a estes problemas ‘dentro de casa’, a vítima enfrenta questões familiares. “É que o homem é ruim só para a mulher. Para os demais familiares, é visto como uma pessoa boa, que trata bem a mulher e leva o sustento para dentro de casa. Por isso, na maioria das vezes os familiares ficam contra a mulher.”
Fique atenta
Especialista no assunto, a psicóloga Márica Preus alerta para traços que indiquem relações de posse. “Qualquer ato que indique traço de posse é perigoso. É preciso ficar alerta ao formato de controle do homem em relação à mulher”, observa.
A profissional, que coordena o Grupo Reflexivo para Homens Envolvidos em Violência Doméstica, explica que um dos sinais é quando o homem tenta moldar o comportamento da mulher, de acordo com a sua vontade. A psicóloga ressalta que o homem que mata dá sinais antes. “É controlador, manifesta comportamentos de posse e sempre reage de forma negativa. Ele não vai usar a conversa para resolver o conflito; a tendência é usar violência patrimonial, física e psicológica. São estes relacionamentos doentes que acabam com a morte da mulher”.
Por isso, Márcia Preuss incentiva as vítimas a denunciarem seus agressores. “Os relacionamentos abusivos têm que ser denunciados. As mulheres precisam usar a Lei Maria da Penha.”
Saiba mais
- A primeira vítima do ano foi Gislaine Beatriz Rodrigues Duarte, de 31 anos. No dia 3, ela foi morta com sete facadas, em Guaíba. O suspeito é o namorado, de 44 anos, que foi preso em flagrante.
- Letícia Foster Rodrigues, de 37 anos, foi encontrada morta no dia 13 em Canguçu, após ser dada como desaparecida. Ela tinha um ferimento profundo no pescoço. O suspeito é o ex-companheiro, que fugiu.
- Marinês Teresinha Schneider, de 54 anos, foi morta a tiros pelos ex-companheiro, no dia 18, em Santa Rosa. No dia seguinte, ele se apresentou na Delegacia da Mulher do município.
- Josiane Natel Alves, de 32 anos, foi morta a facadas no dia 18, em Porto Alegre. O suspeito é o ex-companheiro, que foi preso.
- Paula Gabriela Torres Pereira, de 39 anos, foi morta a facadas, em Porto Alegre, no dia 19. O ex-companheiro, de 50 anos, foi preso.
- Uliana Teresinha Fagundes, de 59 anos, foi morta a tiros pelo companheiro, na tarde do dia 20, em Muitos Capões. Após o crime, ele fugiu.
- Mirella dos Santos da Silva, de 15 anos, foi morta em Sapucaia do Sul. O suspeito é o namorado, de 25 anos, que foi preso.