
“Quero o que for melhor para o hospital. Se o melhor não for a minha permanência, que assim seja. Não podemos ser o empecilho para a evolução de uma instituição”. A fala é do administrador do Hospital São Sebastião Mártir (HSSM), Luís Fernando Siqueira. Ele avaliou a atual situação da instituição de saúde de Venâncio Aires durante entrevista à Rádio Terra FM nessa segunda-feira, 26.
Em meio a um cenário de desafios, tanto financeiros quanto operacionais – que não são de agora –, ele comentou sobre os assuntos que estão repercutindo nos últimos dias, especialmente após a afirmação do prefeito Jarbas da Rosa, na última sexta-feira, 23, que antecipou que ocorrerão “mudanças profundas” na gestão da casa de saúde.
Tanto Prefeitura quanto administração e direção do HSSM afirmam que a mesa de negociação está aberta, mas admitem que um dos caminhos avaliados é uma rede hospitalar assumir a gestão do hospital.
Segundo Siqueira, atualmente o déficit mensal varia entre R$ 800 mil e R$ 1 milhão. O passivo total em operações bancárias soma cerca de R$ 20 milhões, valor que gera um custo de, aproximadamente, R$ 500 mil mensais somente para pagamento de juros e amortizações. “Essa dificuldade não é apenas nossa. É a realidade de muitos hospitais que atendem majoritariamente pelo SUS”, pontuou.
Redesenho
Atualmente, a Prefeitura e HSSM mantêm um contrato que movimenta, segundo Siqueira, cerca de R$ 48 milhões por ano, aproximadamente R$ 4 milhões por mês. O valor, somado a outros serviços, a exemplo da Unidade de Pronto Atendimento (UPA), escola infantil, cirurgias eletivas e hemodiálise, eleva o contingente a R$ 62 milhões. Conforme mencionou o prefeito Jarbas da Rosa, na semana passada, o recurso representa 45% de todo o orçamento da Secretaria Municipal de Saúde.
Como o contrato está em vigor nos mesmos ‘termos’ há mais de uma década, o documento está sendo redesenhado com uma comissão conjunta, formada por representantes do hospital e da secretaria. Com este trabalho, o objetivo é estabelecer novas metas qualitativas – como comissões obrigatórias, treinamento de funcionários e pesquisa de satisfação – e quantitativas – a exemplo do número de internações e número de exames. “A Prefeitura não tem condições de cobrir o valo r que o SUS deixa de déficit no hospital. Por isso, existe o esforço junto à esfera federal, por exemplo, solicitando aumento de repasse de Brasília [Governo Federal]”, explicou.
Rede hospitalar
Nos bastidores, uma das alternativas na mesa de discussão entre a diretoria do hospital, liderada por Marcelo Farinon, e a Prefeitura, é a integração do HSSM a uma rede hospitalar. Durante a entrevista, Siqueira avaliou como um caminho possível. Segundo ele, integrar uma rede fortalece as negociações com fornecedores e qualifica as escalas médicas. “Para resultados diferentes, precisamos de alternativas diferentes. Estamos abertos a todos os cenários”, afirmou.
Por outro lado, observa, há questões que precisam ser consideradas “As redes vão querer? Como é o estatuto do hospital em relação a isso? Vai se dar via Prefeitura?”, refletiu. “Elas vão olhar os números e observar o potencial do hospital”, comentou. “Estamos debruçados sobre os números para entender o custo real de cada setor, separando o que é SUS do que é convênio”, complementou.

SUS e convênios
- Na última semana, o prefeito revelou que, hoje, o SUS corresponde a 87% da composição da receita do HSSM, precisando de evolução em parcerias, com novos convênios, para diversificar a entrada de recursos.
- Conforme o administrador, o hospital concorda que é preciso aumentar o índice, mas argumentou que o funcionamento do SUS “desfavorece”, segundo ele, a busca por convênios.
- “Quem tem SUS não precisa ter nenhuma preocupação, sempre tem plantonista disponível no hospital. E isso, de certa forma, desmotiva a busca por convênios e particulares, porque a gente tem o SUS de qualidade”, disse.
- Segundo Fernando, é preciso ter uma análise aprofundada sobre os números. “A produção no SUS representa quase 90%, mas a receita gerada pelos convênios é maior, passando de 20%.”
Esforço coletivo
- Apesar da crise financeira, Siqueira destacou que o hospital teve avanços importantes na história recente. Citou a abertura da UTI Pediátrica, nova ressonância magnética e o projeto de expansão da área de saúde mental – que está em andamento – e acrescentará 20 leitos à instituição.
- “O mesmo hospital que era herói na pandemia hoje parece ser o centro dos problemas. Mas temos um selo de acreditação, abrimos novos serviços, a dívida do hospital é praticamente a mesma de quando eu cheguei. Evoluímos muito e tem outras melhorias ainda”, comentou.
- Sobre contornar a situação atual, Siqueira frisou a necessidade de engajamento, principalmente interno, na busca de soluções. “O corpo clínico talvez esteja com o menor envolvimento no hospital, porque é o primeiro a sofrer com a questão financeira. Precisamos ter todos numa mesa, vendo os cenários e não olhando para o próprio umbigo”, desabafou.
Repercussão sobre mudanças no Plantão Pediátrico
Na sexta-feira, 23, após receber informações de membros do corpo clínico do Hospital São Sebastião Mártir sobre possível fechamento do Plantão Pediátrico, a Defensoria Pública de Venâncio Aires, por meio das defensoras Luciana Artus Schneider e Roberta Nozari, encaminhou ofício à Prefeitura e à instituição de saúde pedindo esclarecimentos.
Ontem, em entrevista ao Grupo Folha do Mate, o administrador Fernando Siqueira esclareceu que a administração não cogitou, em momento algum, encerrar o serviço, mas implementar mudanças no serviço prestado. Segundo ele, a nova proposta – que não teve definição até o momento – implementaria um Pronto Atendimento 24 horas com médicos para atender crianças e adultos.
A mudança contribuiria, conforme o administrador, para atender a demanda já registrada antes mesmo do início do Plantão Pediátrico. “Hoje, os pais chegam às 17h e precisam esperar até o início efetivo do atendimento. Com o modelo 24 horas, essa tensão se dilui ao longo do dia”, explicou.
A proposta prevê dois médicos por turno, sendo um para a emergência e outro para consultas. A exigência é que esses profissionais tenham experiência comprovada em atendimento infantil, mesmo que não sejam especialistas em pediatria.
Atualmente, os profissionais do Plantão Pediátrico são terceirizados. Com a mudança proposta, essa passa a ser uma opção caso os médicos não concordem com o modelo em discussão. “Ao pagar mais para os plantonistas do adulto, consigo qualificar para profissionais que também atendam o pediátrico”, explicou.
Neste modelo, o pediatra intensivista da UTI Pediátrica e do bloco cirúrgico continuaria disponível para dar suporte em casos graves ou quando solicitado pelo médico do PA. “Não é uma regressão. Estamos buscando atender convênios e SUS durante o dia todo, algo que hoje não acontece no hospital”, observou.
Atualmente, o Plantão Pediátrico funciona no período noturno durante a semana, das 19h às 7h, e 24 horas aos finais de semana, sendo financiado pela Prefeitura, Unimed e hospital.
UTI Pediátrica
- A UTI Pediátrica também foi assunto envolvendo o HSSM. Segundo fontes ouvidas pela reportagem, a unidade ficou fechada na regulação estadual durante o final de semana, supostamente, por falta de profissionais para fechar a escala, que é gerenciada por uma empresa terceirizada.
- O administrador, durante a entrevista, afirmou que teve sinalização por parte da empresa de que poderia não ter escala disponível, mas que acabou sendo fechada de última hora, com profissional cumprindo os horários durante o fim de semana.
- Ele acrescentou que desde quarta-feira, 21, a UTI Pediátrica estava sem pacientes internados e, aproveitando o período sem atendimentos, a equipe realizou a higienização e manutenção de equipamentos, processo obrigatório a cada seis meses.
Médico comenta versão sobre plantão pediátrico e Simers emite nota
As possíveis mudanças no Plantão Pediátrico do hospital foram comentadas em uma rede social pelo médico e coordenador da Emergência do HSSM, Omar Moussali. Diferente do que diz a administração, que afirma que a mudança ainda não foi aprovada, o médico sustenta que a decisão foi tomada de forma unilateral, sem o conhecimento da equipe que integra a escala.
“A decisão já havia sido tomada sem nenhum conhecimento dos atuais plantonistas, sendo oferecidos nossos plantões pelas nossas costas. Já havia uma escala montada sem nenhum plantonista que atende atualmente. Nos informaram no dia 22 de janeiro que a empresa já poderia assumir no dia 1º de fevereiro”, escreveu Moussalli, na rede social, criticando a falta de aviso prévio e o desrespeito com médicos que integram a equipe há anos.
Para Moussalli, a medida acabou soando como retaliação após o corpo clínico se reunir com o Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers) em 21 de janeiro para relatar atrasos salariais. “Passamos o ano inteiro de 2025 recebendo em atraso. Deveríamos receber dia 15, mas nunca éramos comunicados de nada, sempre eu tinha que ir perguntar se nos pagariam”, disse o médico à reportagem.
Moussalli ainda mencionou o que ele chamou de “riscos na terceirização de serviços”, citando falhas recentes nas escalas da UTI Pediátrica e da Obstetrícia. Segundo ele, empresas contratadas não conseguiram suprir a demanda de médicos.
Simers
O Simers emitiu nota oficial nessa segunda-feira, 26, manifestando “profunda preocupação”. A entidade confirmou relatos de atrasos recorrentes nos honorários, atuação de médicos sem contrato formalizado e situações de assédio moral. “O centro obstétrico apresenta falta de médicos nas escalas de ginecologia e obstetrícia; e a UTI pediátrica sofre com escassez de pediatras”, prosseguiu o comunicado.
Como encaminhamento, o Simers solicitou uma audiência pública na Câmara de Vereadores, com apresentação do Projeto Anti-Calote – que cria mecanismos para garantir pagamento regular aos médicos – e participação do Ministério Público, Prefeitura, Secretaria de Saúde e direção do hospital.
A direção do HSSM foi questionada sobre a nota e afirmou, na noite desta segunda-feira, 26, que não havia recebido nenhum comunicado oficial do sindicato.
Presidente do HSSM: “Não existe terra arrasada”
À frente do processo que definirá o futuro do Hospital São Sebastião Mártir (HSSM) está o presidente da instituição, Marcelo Farinon, que atua como o elo entre a administração da instituição de saúde e a Prefeitura de Venâncio Aires.
O destaque dos últimos meses é o trabalho para definir um novo modelo de gestão e sustentabilidade financeira. “Não existe terra arrasada. Os acontecimentos recentes culminaram junto com uma questão financeira um pouco mais séria, que todos sabiam, inclusive a Prefeitura enquanto órgão fiscalizador. Mas estamos todos juntos, debruçados em alternativas para resolvermos tudo o quanto antes”, afirmou.
Um dos pontos centrais das discussões atuais, a possibilidade de mudança na gestão do hospital, segundo Farinon, tem sido tratado com a maior transparência possível. “Não existe nada às escuras, estamos conversando. O diálogo está se fortalecendo para que seja feito o melhor possível pela instituição.”
Sobre as decisões, especialmente em relação ao atual modelo de gestão, Farinon reforçou que as atitudes são tomadas coletivamente. “Eu não represento a diretoria individualmente. Essa não é uma conversa que eu vou tratar sozinho com quem quer que seja”, explicou.
Ele enfatizou que as demandas não são levadas “debaixo do braço”, mas sim debatidas em reuniões de diretoria e explanadas ao corpo clínico. “O que realmente importa está sendo tratado com todos na mesa. As falas podem parecer desconexas entre uma e outra, mas internamente o diálogo está se fortalecendo”, pontuou.
Contrato
Outro ponto é o redesenho do contrato com o Executivo. Segundo Farinon, o desafio é alinhar a viabilidade econômica com a necessidade de atendimento ao convênio com o poder público. “É de interesse de todos que o hospital continue bem”, destacou o presidente.

Saída em março
- Farinon, que já foi vice-tesoureiro e vice-presidente da instituição, assumiu a presidência com um mandato que encerraria originalmente em maio de 2025, mas foi prorrogado por duas oportunidades. O término está marcado para o dia 10 de março.
- O objetivo, segundo ele, foi evitar complicações em um período de fim de ano e alinhar as discussões, como o reajuste contratual. “O hospital não pode ficar à mercê. É um compromisso muito grande, onde a responsabilidade do CPF do presidente está atrelada ao CNPJ da instituição”, explicou.
- Apesar dos avanços e do diálogo com o prefeito Jarbas da Rosa, Farinon afirmou que mantém a decisão de deixar o cargo em março. Aos 44 anos, e com o nascimento recente do terceiro filho, ele cita razões pessoais e profissionais, defendendo a necessidade de ‘oxigenação’ na diretoria.