Produtores de Linha Tangerinas confirmam problemas para conseguir mão de obra nas últimas safras (Foto: Júnior Posselt/Folha do Mate)
Produtores de Linha Tangerinas confirmam problemas para conseguir mão de obra nas últimas safras (Foto: Júnior Posselt/Folha do Mate)

Venâncio Aires - Os dias quentes do verão marcam o ritmo acelerado de trabalho nas lavouras de tabaco. É nesta época que os produtores rurais se dedicam à colheita, que, no ciclo 2025/2026, atinge metade de conclusão em todas as regiões produtoras, segundo dados da Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra). No entanto, apesar dos preços favoráveis pagos pela arroba, um movimento preocupa a cadeia produtiva: a falta de mão de obra para atuar nas lavouras. O movimento de evasão, principalmente dos jovens para as áreas urbanas, tem inflacionado os custos para quem tem demanda.

Em algumas regiões, o valor da diária chega a R$ 400. “A escassez de mão de obra é uma realidade que afeta não só o tabaco, mas toda a extensão rural. Isso exige que o produtor se organize com antecedência”, alerta o presidente da Afubra, Marcílio Laurindo Drescher. Com as condições atuais enfrentadas pelo setor, o dirigente propõe uma análise por parte dos produtores sobre a viabilidade de contratar terceiros para a colheita e os demais serviços nesta época.

Segundo a análise, a elevação da diária ou da mão de obra na colheita, seja por empreitada ou de qualquer outra forma, impacta no custo de produção. “O produtor deve avaliar se não é mais rentável reduzir a área plantada para que a demanda possa ser suprida apenas pela mão de obra familiar. Isso garante que o lucro permaneça com a família”, analisa.

O presidente reforça que a falta de planejamento pode comprometer o resultado financeiro da safra. “Sempre tem que objetivar ganhar pelo trabalho próprio e da família, para que esse dinheiro não seja gasto antecipadamente, para depois, eventualmente, receber um preço, talvez, que não compense este custo de produção”, afirma Drescher.

Realidade do produtor

A falta de ‘gente para trabalhar’ e os altos custos praticados pelos diaristas ou empreiteiras abrangem todas as regiões produtoras. Em Linha Tangerinas, interior de Venâncio Aires, o casal Cleomar Rodrigues de Oliveira, de 44 anos, e Patrícia Alexandra Quintana, de 41, finalizou a colheita pouco antes do Natal.
Para a safra plantaram 51 mil pés, mas preveem uma quebra de 50% na produtividade, devido aos estragos causados pelo granizo de novembro. Naquele período, adiantaram a colheita para evitar perdas que poderiam ser ainda maiores.

Como plantam tabaco em menor quantidade, conseguem dar conta da colheita, mas costumam contar com o trabalho de terceiros. “Sempre tem muita demanda, e uma competitividade grande entre um produtor e outro”, analisa Cleomar. Para cada dia trabalhado, além da remuneração, pontua o produtor, são garantidas alimentação – como lanche no período da manhã, almoço e café da tarde –, além de transporte.

Conforme outros produtores ouvidos pela reportagem, mas que não quiseram se identificar, além do êxodo rural que impacta a disponibilidade de mão de obra, a concessão de benefícios sociais também tem impacto no setor. “São 48 milhões de pessoas recebendo Bolsa Família para 39 milhões com carteira assinada. Como isso vai funcionar?”, questiona um agricultor da região.

Em anos anteriores, segundo ele, os produtores costumavam plantar menos pés de tabaco e trocavam dias com vizinhos. Outro ponto analisado por um produtor é a competitividade entre agricultores, um oferecendo mais que o outro, para conseguir mão de obra.

Negociação do preço do tabaco será na segunda quinzena

Enquanto lida com os custos elevados, a cultura do tabaco avança nas lavouras. Nesta semana, a colheita da safra 2025/2026 ultrapassou 50% do total nos três estados do Sul. A comercialização também está ganhando ritmo, com as empresas integradoras iniciando as compras conforme o cronograma de cada região.

A definição oficial do reajuste das tabelas de preços deve ocorrer na segunda quinzena de janeiro, através das comissões representativas (Cadecs). A expectativa da Afubra é que as empresas reconheçam o aumento dos custos de produção para garantir a sustentabilidade do agricultor.

Quanto à qualidade do tabaco, o presidente Marcílio Drescher menciona que impactos climáticos pontuais durante o plantio causaram uma pequena redução na produtividade e na qualidade em algumas áreas. “Isso foi constatado ainda em novembro. No entanto, é algo sazonal e varia de região para região, não atingindo a totalidade dos três estados de forma igual”, analisa.

Vender agora ou esperar?

Sobre o momento ideal para a venda do tabaco na safra 2025/2026, Drescher pondera que o mercado internacional é volátil. “Não se pode prever com exatidão se é melhor vender agora ou segurar o produto. Defendemos que o preço seja justo e coerente do início ao fim da safra, garantindo equilíbrio para todos os integrados”, afirma.

Júnior Posselt

Repórter

Acompanha assuntos voltados ao interior e à educação.

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