
Venâncio Aires - “É normal baixar o preço no verão, mas no inverno também não atingiu o melhor e vem caindo desde então. O leite já teve outras crises na história, mas acho que essa é uma das piores.” A avaliação é de Aloisio Finkler, 59 anos, morador de São Miguel, Vila Santa Emília, interior de Venâncio Aires. O produtor lida com leite ‘desde sempre’, por isso, mesmo fazendo ressalvas, não esconde a apreensão com o momento do setor. Em todo Brasil, em meio às importações, o cenário é de baixas sucessivas nos preços. Ao mesmo tempo, o número de produtores vem caindo nos últimos anos, situação também verificada em Venâncio Aires.
Quando assumiu a propriedade da família, no fim da década de 1980, Finkler contava com cinco vacas de raças cruzadas, tirando entre 10 e 12 litros de cada animal por dia, tudo na mão. Quase 40 anos depois, mantém um plantel de 11 vacas em ordenha, da raça holandesa, mas é necessário um investimento constante para garantir maior produtividade: ordenha mecanizada, plantio de milho para silagem e pastagens, além de cerca de R$ 8 mil mensais em insumos (o que inclui farelo de soja, ração e sal mineral, por exemplo).
Custo elevado
Esse investimento associado ao melhoramento genético, trouxe mais eficiência aos animais e hoje tira uma média diária de 27 litros por vaca – considerando todo o ano, mas o custo de produção, segundo ele, está alto. “O custo de produção está aumentando e o preço do leite, em 2025, teve um mês que houve evolução. Os demais meses foi caindo, cerca de R$ 0,10 até R$ 0,15 no mês. Então chegando a um patamar de menos de R$ 2 agora no fim do ano. A gente faz tudo para ter uma produção boa e para isso precisa investimento, mas o retorno não é o que poderia e deveria ser. Por isso até tem poucos jovens no interior. Como segurar um filho em casa se a tua produção não dá retorno que garanta futuro? Vejo o setor leiteiro em crise.”
Preço do leite
Segundo Finkler, que é associado a uma cooperativa do Vale do Taquari, no inverno de 2025 o melhor preço não chegou ao que se pagava no verão de 2024 – historicamente os meses frios são de maior produção leiteira e melhores preços. Em novembro de 2025, recebeu R$ 1,96 por litro, sendo que em novembro de 2024 recebeu R$ 2,52 – uma queda de 22%.
“Aqui tentamos melhorar cada vez mais a genética e diminuir custos. O clima também afeta. Mas se conseguíssemos trancar a importação ou proibir uma reidratação do leite, penso que melhoraria bastante para os produtores. Como vem a importação a um preço inferior que temos aqui, as empresas e cooperativas se obrigam a pagar cada vez menos para poder competir no mercado. E tem outra coisa: não sabemos se estão fazendo controle de qualidade do leite em pó. Para nós, tem normativas com parâmetros que precisamos atingir”, observa.

Venâncio tem queda de 66% em produtores de leite desde 2015
Na fala do produtor venâncio-airense Aloisio Finkler, ele menciona a preocupação com a sucessão rural e, no caso do setor leiteiro, os números em queda ajudam a explicar. No Rio Grande do Sul, de acordo com dados da Emater, eram 84,1 mil propriedades que vendiam leite em 2015 e 28,9 mil em 2025 – queda de 65%. Em Venâncio Aires, o percentual ainda é um pouco maior: de 203 produtores em 2015 caiu para 68 em 2025 – queda de 66%.
Entre os que deixaram a atividade nos últimos anos está Daniel Kessler, 58 anos, morador de Linha Olavo Bilac. Ele planta arroz, atividade que é o carro-chefe da propriedade há mais de 20 anos, mas em 2008 decidiu diversificar com o leite. “Investimos porque tivemos incentivos das empresas e cooperativas. Fizemos uma baita construção. Mas depois vimos que na produção de leite, a exigência era muito grande. Com o passar do tempo, o preço foi baixando cada vez mais, mas o custo para investir era cada vez maior e a mão de obra difícil.”
Com isso, Kessler decidiu parar com o leite no início de 2020 e, desde então, segue com a estrutura parada. “Na época, o arroz estava com melhor o preço e exigia um pouco menos de mão de obra, por isso decidimos seguir com o arroz. Mas temos a construção do leite parada e vários implementos que não se consegue vender. Essa estrutura não se faz hoje com R$ 250 mil.” Perguntado se pensa em voltar para a produção leiteira, o agricultor é categórico. “Não, nessa propriedade nunca vai voltar. É muito investimento. Não tem como produzir com esses preços.”

Menos vacas, mas que produzem mais leite
Além de queda no número de produtores no Rio Grande do Sul, também caiu o número de vacas no estado. De acordo com dados da Emater, em 2015 eram 1,1 milhão de animais que produziam para venda e, em 2025, 742,5 mil – queda de 36,8%. Em Venâncio Aires, o número de vacas caiu de 2,4 mil para 1,1 mil entre 2015 e 2025 – queda de 53%. Mesmo com essa diminuição importante no número de animais, o volume de leite produzido cresceu de forma ainda mais significativa. No estado, passou de 11,8 litros/dia por vaca para 17 litros/dia, entre 2015 e 2025 – aumento de 44%. Em Venâncio, subiu de 11,5 litros para 19,8 litros no mesmo período – aumento de 72%.
Mais eficiência
Na prática, os animais ficaram mais eficientes, devido ao melhoramento genético e manejo. “Quem permaneceu no leite nos últimos anos se especializou, melhorou o plantel, o manejo, a genética e aproveitou políticas públicas para se beneficiar e beneficiar a cadeia. E esse investimento em melhoramento de forma geral explica o aumento da produção diária de leite de cada vaca, que está acima da média do estado. Ou seja, nosso produtor de leite em Venâncio é muito bom”, avalia o engenheiro agrícola da Emater local, Diego Barden dos Santos.
Santos entende que, por Venâncio Aires ter propriedades menores, acaba impactando na cadeia do leite. “Nosso limitante hoje é a área, tanto de pastagem como produção de silagem. Tem menos área destinada à produção pecuária. Consequentemente, nossa necessidade de ajuste de produção nesta área é muito delicada, o produtor tem que estar muito atento, tem que ser muito bom e talvez isso é um dos motivos que o nosso índice de litros por vaca/dia é melhor que do estado, porque a gente tem pouca área, mas tem que cuidar mais dela.”

“É um setor em transição e reestruturação”, avalia secretário-executivo do Sindilat
No fim de dezembro, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) anunciou a compra de 2,5 mil toneladas de leite em pó – volume equivalente a cerca de 20 milhões de litros de leite integral – de associações e cooperativas da agricultura familiar. Com investimento que pode chegar a R$ 106 milhões, o presidente da estatal, Edegar Pretto, afirmou que a intenção é ‘enxugar’ a produção e fazer com que os preços pagos aos produtores retornem a patamares mais elevados.
Ao avaliar a iniciativa, o secretário-executivo do Sindicato da Indústria de Laticínios do Rio Grande do Sul (Sindilat) e coordenador do Conselho Paritário Produtores/Indústrias de Leite do RS (Conseleite), Darlan Palharini, disse que são iniciativas positivas enquanto medidas emergenciais, mas insuficientes diante do volume de estoques da indústria brasileira, hoje estimado em cerca de 100 mil toneladas de leite em pó. “A produção nacional segue em alta, ao mesmo tempo em que se intensifica a entrada de leite em pó e queijo importados da Argentina e do Uruguai. Esse leite em pó vem sendo utilizado por indústrias alimentícias na fabricação de chocolates, pães, biscoitos e outros produtos processados, substituindo a matéria-prima que anteriormente era adquirida de empresas e produtores brasileiros.”
Medidas
Para reverter esse cenário, Palharini defende a adoção de outras medidas com potencial de impacto imediato, como a aplicação provisória de sobretaxas sobre as importações. “Essa medida se justifica pela investigação em curso sobre subsídios concedidos pelos governos da Argentina e do Uruguai, em 2022, que resultaram no aumento da participação de derivados lácteos importados no mercado brasileiro de 2% para cerca de 9% em 2025. Em termos práticos, isso representa um excedente superior a 2 bilhões de litros de leite. Também é fundamental a revisão das licenças de importação, com a retirada do sistema automático, de forma a limitar essas entradas.”
Ainda para o secretário-executivo do Sindilat, é preciso reforçar que o setor demanda uma política setorial permanente, “capaz de garantir estabilidade e competitividade no longo prazo, inserida em uma visão estratégica que reconheça a relevância da cadeia láctea.”

Desafios
Ao analisar o setor em meio à queda de produtores mas aumento de produtividade, Darlan Palharini entende que a cadeia está em transição e reestruturação. Conforme ele, há um conjunto de fatores estruturais onde se destacam a falta de mão de obra, o envelhecimento de produtores e dificuldades de sucessão familiar que implicam no desafio de manter a rentabilidade, sobretudo nas propriedades de menor escala. Esse processo, segundo Palharini, tem levado à saída gradual da atividade e reflete uma tendência observada em diversos países.
“No caso do estado, esse movimento foi agravado pelos impactos da pandemia e pela recorrência de eventos climáticos extremos, como secas e enchentes, que aumentam custos e aceleram a decisão de muitos produtores de deixar a atividade. Hoje, produz-se com menos propriedades, mas com sistemas mais estruturados, maior número de animais por unidade produtiva, mais tecnologia e melhor manejo. Trata-se de um movimento claro de profissionalização da cadeia com melhora nos indicadores.”
Para Palharini, o principal desafio do setor leiteiro é garantir sustentabilidade econômica com inovação, por meio de crédito acessível, boa gestão, assistência técnica qualificada e um ambiente de mercado mais previsível. “O leite exige políticas públicas de longo prazo que fortaleçam sua competitividade e isso passa por coordenação setorial, investimentos em tecnologia, estradas, energia e conectividade, além de medidas que tornem a atividade atrativa para os jovens.”
Futuro do leite
O secretário-executivo do Sindilat afirma que, para o setor leiteiro crescer, precisa de produtores, indústrias e cooperativas fortes. Darlan Palharini desta que esse elo é fundamental e a manutenção do Programa Mais Leite Saudável é um exemplo desse desafio. “Com a entrada em vigor da reforma tributária e a substituição do PIS e Cofins pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), será necessário que o Governo Federal atue para reconstituir o programa, restabelecendo critérios tributários que garantam a continuidade dos recursos ao fomento da produção e, por parte do Estado, a liberação e a operacionalização desburocratizada do Fundoleite. Sem essa recomposição, perdem-se instrumentos estruturantes de desenvolvimento da cadeia leiteira.”
“A oscilação de preços sempre existiu no leite, por ser uma atividade sensível. Atualizar a propriedade para aumentar a escala produtiva ajuda, mas não resolve o problema. Sem políticas públicas que segurem a volatilidade, produtores e indústrias ficam expostos aos riscos.”
DARLAN PALHARINI – Secretário-executivo do Sindilat e coordenador do Conseleite no RS
Leite é o 5º principal produto no VBP do RS
De acordo com a Emater, o leite é o 5º principal produto da composição do Valor Bruto da Produção (VBP) do Rio Grande do Sul e chega a R$ 9,5 bilhões/ano. A maior parte dos quase 4 bilhões de litros anuais produzidos e que são vendidos, é comercializada por meio de indústrias, cooperativas e agroindústrias familiares que destinam o leite e derivados, principalmente para outros estados.
Conforme o Sindilat, cerca de 60% da produção seguem para fora do estado, enquanto aproximadamente 40% permanecem no território gaúcho. No Rio Grande do Sul, a produção é concentrada: 85,5% dos produtores e 86,1% do volume destinado à industrialização estão localizados nas regiões do Vale do Caí, Planalto e Alto Uruguai. Na região dos Vales do Taquari e Rio Pardo, os destaques são os municípios de Estrela e Teutônia.
Agroindústria
Além de empresas e cooperativas, o estado tem 173 agroindústrias que compram leite – duas delas em Venâncio Aires. Uma é a Agroleite, de Linha 17 de Junho, que depois de mais de 20 anos de funcionamento, construiu um prédio novo, maior e com mais maquinário. A nova estrutura opera desde o início de 2025 e, do que foi projetado, tem condições de triplicar a produção de leite pasteurizado e queijo.
Atualmente, a agroindústria compra diretamente de 15 famílias e teria condições de comprar mais. “Estamos aumentando de forma gradual. Não se consegue de uma hora para outra ter a compra da matéria-prima. Ainda não conseguimos triplicar a produção, mas em venda já aumentamos cerca de 30%”, revela Rodrigo Angnes, que toca a agroindústria com a família.
Perguntado se a diminuição no número de produtores nos últimos anos preocupa, Angnes diz que sim, devido à demanda da agroindústria. “Nós, que compramos e logo vendemos, no caso é ‘cadeia curta’, prejudica porque não tem muito alcance. Não conseguimos ir muito longe para captar leite. Então preocupa se na nossa cidade e região está tendo essa diminuição.”

6,8 milhões de litros – foi o que Venâncio produziu de leite em 2025. Entre 2015 e 2025, o município registrou um aumento de 139% em litros por propriedade vendidos a empresas, cooperativas e agroindústrias. Passou de 41,7 mil litros para 100 mil litros.
“É criar as melhores soluções para continuar na atividade”, afirma produtor
Marcelo Müller, 42 anos, e a esposa Liege Schweikart, 38, tocam sozinhos a produção de leite desde 2011, em Linha 17 de Junho, interior de Venâncio Aires. Por lá, investiram numa estrutura que lhes garanta condições de fazer do leite uma atividade rentável, mesmo em momentos difíceis.
Para o agricultor, o setor sempre passou por desafios e as decisões de parar ou de continuar vêm da forma como se olha para esses desafios. “Somos apenas eu e a esposa e, nesses anos, tivemos que estruturar o plantel, construir toda uma estrutura do zero, e facilitar o manejo e mão de obra para poder viver dessa atividade. A gente olhava e via o que tinha de oportunidade e o que tinha de desafio. Para isso, foi muito importante as pessoas que a gente conseguiu agregar para nos dar o apoio dentro da propriedade, que é a assistência técnica da Emater, crédito das entidades financeiras e também a cooperativa que a gente entrega, que é a Dália Alimentos. E trabalhou muito fortemente com parceiros da propriedade. Aí de forma conjunta a gente consegue criar as melhores soluções para continuar na atividade.”
Evolução
Em 2011, o casal iniciou com oito vacas, sendo que cinco eram alugadas, e a primeira entrega foi de 70 litros/dia, somando todos os animais. Catorze anos depois, no inverno de 2025, houve momentos de 38 litros de leite por vaca. Essa melhora significativa na produtividade aconteceu, conforme Müller, devido aos investimentos em infraestrutura, com o sistema freestyle (semiconfinamento), melhoramento genético e busca de conhecimento em inseminação e nutrição dos animais. Além disso, estruturaram a propriedade para o plantio de pastagens e produção de volumoso, garantindo alimento que também melhore a eficiência na produção leiteira.
Outro ponto importante citado por ele é a aglomeração de partos. “São basicamente três lotes: vacas em lactação, novilhas e terneiras. Eu vou ter um período do ano onde vou ter todas as terneiras no leite. Mas vou ter um período muito maior que não vou levar leite para nenhuma terneira. Agora, por exemplo, nosso foco é a produção de volumoso para armazenar e tratar as vacas no inverno. É a nossa forma de conseguir reorganizar a mão de obra e tornar ela mais eficiente.”

Curvas de remuneração
Marcelo e Liege têm atuais 20 vacas da raça holandesa em ordenha e tiram média de 26 litros/dia por animal. Sobre o preço, ele recebeu uma média de R$ 2,48 por litro em 2025, sendo que em 2024 foi de R$ 2,44. Ou seja, teve um aumento na média. “Uma coisa muito importante que precisa olhar é a estrutura de mercado do leite, para as curvas de remuneração, e vimos ali uma oportunidade. Uma tendência natural de todo produtor é de produzir continuamente durante os 365 dias do ano. Mas a remuneração do leite faz uma curva durante o ano, uma remuneração que começa a aumentar de preço a partir de março e um declínio no final dos meses de inverno, ali por setembro. E o que a gente olhou? Precisa produzir mais leite durante os meses onde o mercado nos remunera melhor.”
Diferença
É esse ponto que Marcelo Müller considera, hoje, além de todo o manejo, que está fazendo a diferença entre ser uma atividade viável ou não. “A gente insemina todas as vacas no mesmo período para que entrem em lactação no mês de março, que tenha o maior volume de produção dentro dos meses do inverno, que aí vai coincidir com o período que a indústria me paga mais, que a cooperativa remunera melhor ou o mercado remunera melhor.”
Segundo o produtor de Linha 17 de Junho, além da remuneração que garante a viabilidade do negócio, ele consegue, no fim de fevereiro e começo de março, alguns dias sem entrega de produção e sem vacas em ordenha. “Consigo lincar as duas coisas, né? A minha propriedade é rentável e tenho as tão sonhadas férias que muitas vezes é um desafio na propriedade de leite que leva o produtor a desistir.”
