
Venâncio Aires - O prefeito de Venâncio Aires, Jarbas da Rosa, revelou em entrevista à Terra 105.1 FM nessa sexta-feira, 23, que o Executivo Municipal trabalha em parceria com a diretoria do Hospital São Sebastião Mártir (HSSM) para implementar uma reformulação completa no modelo de gestão da casa de saúde. “Vai ter uma transformação profunda na gestão”, antecipou o chefe do Executivo. A instituição é referência não apenas para o município, mas também para Mato Leitão, Passo do Sobrado e Vale Verde.
Embora o tema venha sendo tratado nos bastidores há cerca de dois meses, o debate ganhou força nas últimas duas semanas após repercussões sobre possíveis atrasos no pagamento de funcionários da Unidade de Pronto Atendimento (UPA), gerenciada pelo hospital. Na ocasião, a Prefeitura divulgou os repasses financeiros feitos ao HSSM em 2025 e solicitou esclarecimentos sobre a situação financeira da entidade.
De acordo com o gestor, a crise nos serviços de saúde não é isolada e afeta mais de 1,8 mil hospitais filantrópicos – caso do hospital de Venâncio – e santas casas, que precisam se manter mesmo com defasagem no orçamento, destaque para a tabela do Sistema Único de Saúde (SUS), e a falta de repasses federais. No entanto, explica o prefeito, em Venâncio Aires o cenário se mostra ainda mais desafiador, apesar dos adiantamentos e repasses extraordinários. Somente no ano passado, pelo contrato único que engloba o hospital e a UPA, o valor destinado foi de R$ 62 milhões, que segundo Jarbas, representa 45% de todo o orçamento da Secretaria de Saúde de Venâncio.
“Investimos e buscamos recursos constantemente. Estamos trabalhando junto ao Ministério da Saúde para aumentar o Teto MAC [Média e Alta Complexidade] em R$ 250 mil mensais. É um recurso importante, pois hoje executamos serviços que excedem o repasse do Ministério da Saúde. Já sinalizaram, mas não tem orçamento. E na Prefeitura é a mesma situação. Precisamos tirar o dinheiro de algum lugar”, explicou Jarbas, enaltecendo que o Estado tem demonstrado apoio com uma série de parcerias.
Dessa forma, contextualiza, o problema perpassa a falta de recursos e está na necessidade de um redesenho administrativo, processo que está sendo debatido há cerca de dois meses. “Estamos conversando muito com a direção do hospital, pois temos um contrato e trabalho integrado. Entendemos que os recursos são importantes, mas precisamos dar um passo além, passando por uma nova gestão, com mudanças mais profundas, que possam alterar a dinâmica de funcionamento do hospital”, afirma.
Jarbas da Rosa exemplificou a composição da receita do HSSM. No período antes da pandemia, o SUS correspondia a 77% do orçamento do hospital. Hoje, cinco anos, o índice está em 87%. “Aumentamos os repasses, mas não tivemos essa mesma dinâmica e crescimento de convênio e particulares, que é isso que equilibra a sustentabilidade de um hospital filantrópico”, pontuou. “Se a gente, pelo menos, alcançasse 75% do SUS e 25% de convênios/particulares. O dado é o que a boa prática de gestão hospitalar mostra no Brasil inteiro e com esta finalidade estamos trabalhando”, disse.
A correção busca melhorar o atendimento, com aumento de serviços prestados, convênio e particulares, equilibrando a balança, e garantindo que funcionários e médicos recebam em dia, além de evitar o adiamento de cirurgias eletivas.

Ociosidade
Durante a entrevista, o prefeito Jarbas da Rosa alegou a falta de interesse por parte da administração do hospital em realizar procedimentos, que acabaram sendo efetivados com instituições de saúde da região, como Santa Cruz do Sul e Lajeado. No ano passado, mais de 200 cirurgias de catarata precisaram ser encaminhadas para fora do município por falta de interesse ou capacidade operacional interna de realização pelo hospital.
“Não houve interesse por parte do hospital, corpo clínico, e é prejudicial ao paciente, que precisa viajar. Compramos o serviço em outro hospital. E essas questões precisam ser discutidas. Um hospital não pode perder receitas que são bem-vindas”, pontuou. “Nosso objetivo é que com uma nova gerência o hospital absorva a necessidade da população e da Prefeitura, que hoje é a maior parceria”, reiterou.
Próximos passos
- Jarbas confirmou que há conversas avançadas com “players”, segundo ele, do setor hospitalar – ou seja, grupos de administração hospitalar no Rio Grande do Sul e também de fora do estado – para integrar modelo de gestão mais eficiente.
- A expectativa é que novidades sobre esse novo desenho de gestão sejam anunciadas nas próximas semanas. “Ninguém está sentado esperando. Estamos trabalhando nesse assunto há mais de 60 dias, discutido internamente e externamente, e está em construção.”
- O chefe do Executivo complementou que a articulação não envolve a troca da diretoria, presidida por Marcelo Farinon, e dos conselhos administrativo e fiscal, somente da administração.
“O desenho de gestão atual não é benéfico para a nossa comunidade, visto que precisamos evoluir. Chega o momento de darmos um passo além.”
JARBAS DA ROSA
Prefeito
Posição da administração
- O administrador do Hospital São Sebastião Mártir, Luís Fernando Siqueira, comentou as declarações do prefeito à Terra FM, nesta sexta-feira, 23.
- Sobre a situação financeira, Siqueira garantiu que, apesar dos desafios, a instituição mantém essas contas em dia. “No dia de hoje, todos os pagamentos em relação a médicos e salários de funcionários estão rigorosamente em dia”, afirmou.
- Sobre a ociosidade em procedimentos, o administrador interpretou a fala como uma busca por maior agilidade.
- “Creio que ele [Jarbas] queira ter dito que o hospital precisa ser mais resolutivo em relação a uma maior produção cirúrgica e que não haja descontinuidade de produção”, pontuou.
Intervenção e municipalização
- Jarbas da Rosa descartou medidas mais drásticas como a intervenção municipal, como já ocorreu entre julho de 2011 e maio de 2013, ou a busca pela municipalização do hospital.
- Segundo ele, o diálogo é diário com o presidente do hospital, Marcelo Farinon. “É também o mesmo movimento e intenção da direção. Quando os dois pensamentos, da Prefeitura e hospital, são os mesmos, não vemos necessidade de intervenção”, considerou.
- “A municipalização impediria o atendimento de convênios e particulares, o que não é o que a população deseja. O hospital é da comunidade”, afirmou.
Defensoria aciona Prefeitura e hospital sobre Plantão Pediátrico
A Defensoria Pública de Venâncio Aires recebeu, nesta semana, um alerta de membros do corpo clínico do Hospital São Sebastião Mártir (HSSM) sobre possível fechamento do Plantão Pediátrico. Em operação desde o dia 3 de julho de 2023, o serviço funciona junto ao Pronto-Atendimento (PA) de segunda a sexta-feira, das 19h às 7h, e em regime de 24 horas aos finais de semana e feriados, atendendo pacientes do SUS e de convênios.
Diante do cenário, as defensoras públicas Luciana Artus Schneider e Roberta Nozari enviaram ofícios à Prefeitura Municipal e à gestão do HSSM. No documento, questionam a regularidade dos repasses financeiros para a manutenção das atividades. A defensora Luciana ressalto a importância da iniciativa. “Nós intermediamos o convênio que deu origem a esse atendimento, uma carência antiga das famílias, e agora o serviço está na iminência de se encerrar no final do mês”.
Posicionamento
Questionado pela reportagem, o administrador do HSSM, Fernando Siqueira, declarou que a decisão final sobre mudanças no setor ainda não foi tomada. Segundo ele, a medida faz parte de um “redesenho” do Pronto-Atendimento (PA), com o objetivo de atender a população sem restrição de horários. Sobre o receio de que os médicos plantonistas não consigam absorver a demanda pediátrica, Siqueira informou que o tema está sendo analisado com cautela. “Nossos números indicam que o modelo seria suficiente, mas estamos avaliando com calma”, mencionou.
Na prática, o projeto prevê que os médicos do PA do hospital assumam também o fluxo da pediatria, recebendo um incremento salarial com a unificação de ambos os serviços. “Na proposta que está sendo montada, os recursos repassados pela Prefeitura e pela Unimed serviriam para qualificar a remuneração dos médicos plantonistas, que passariam a atender todos os públicos, de forma semelhante ao que ocorre na UPA”, destacou.
“Não tivemos informações oficiais, apenas uma preocupação extrema vinda do corpo clínico, algo que sequer é de conhecimento da comunidade.”
LUCIANA ARTUS SCHNEIDER
Defensora pública