Crédito: Freepik
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Por Régis de Oliveira Júnior, jornalista e especialista em Inteligência Artificial

A escola que insiste em medir a memória em um mundo mediado por inteligência artificial não apenas falha. Ela perde sentido social, acelera a evasão e amplia desigualdades. Em janeiro de 2026, o sistema educacional enfrenta um impasse público. 

O relatório da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) indica que 85% dos professores no Reino Unido já não distinguem textos produzidos por alunos daqueles gerados por sistemas automatizados. 

A avaliação baseada na repetição de conteúdo tornou-se um ritual vazio. A inteligência artificial executa com velocidade e precisão tarefas baseadas em estrutura padrão e memorização. Ainda falha em voz própria, experiência vivida e julgamento ético. Mesmo assim, a escola segue avaliando exatamente aquilo que a máquina faz melhor, enquanto deixa de lado o desenvolvimento do pensamento humano.

O colapso não é teórico. Em setembro de 2025, levantamentos nacionais mostraram que 7 em cada 10 alunos do ensino médio já admitiam usar inteligência artificial para tarefas escolares. A proibição técnica tornou-se inviável. 

A tentativa de controle transformou a avaliação em imitação de aprendizado. Para o estudante de 2026, a escola virou um jogo de faz de conta. Entregam-se arquivos que não foram escritos para professores que não têm tempo suficiente de leitura crítica.

No Brasil, o início do ano letivo de 2026 expõe um Ministério da Educação ainda preso a respostas defensivas. Apostar em softwares de detecção e marcação digital ignora o centro do problema. 

Pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra que 60% dos universitários relatam ansiedade intensa diante de atividades repetitivas percebidas como inúteis frente ao poder da inteligência artificial. Quando o aprendizado não faz sentido, o vínculo se rompe. Não por acaso, o país iniciou 2025 com cerca de 993 mil crianças e adolescentes fora da escola.

A desigualdade educacional deixa de ser apenas econômica e passa a ser uma desigualdade de aprendizado.

Quem aprende a usar a inteligência artificial para pensar avança. Quem apenas decora para ser avaliado fica para trás. Mesmo com 96% das escolas conectadas à internet, apenas 55% dos alunos utilizam computadores em atividades pedagógicas. A elite aprende a formular perguntas. 

A maioria é treinada para operar comandos básicos em estruturas precárias. A educação baseada na memória funciona, na prática, como um mecanismo silencioso de manutenção das desigualdades.

O professor também está no centro dessa crise. Entre 53% e 56% dos docentes brasileiros já utilizam inteligência artificial no trabalho. Muitos não temem ser substituídos por algoritmos. Temem a sobrecarga. Sem apoio pedagógico e infraestrutura mínima, a tecnologia vira mais uma exigência. O educador deixa de ser mentor e passa a atuar como fiscal de ferramentas digitais em salas de aula que ainda lutam com o básico.

Há um apagão projetado. Estudos indicam um déficit de até 235 mil professores no país até 2040. Reduzir o mestre a um burocrata que monitora fraudes algorítmicas acelera esse esvaziamento. O problema não está no código. Está na forma como o Estado organiza o ensino.

As famílias acompanham esse cenário com ansiedade crescente. Dividem-se entre o medo da preguiça mental dos filhos e a certeza de que dominar a ferramenta será condição de sobrevivência no mercado. O celular assume um papel ambíguo. Proibir parece atraso. Liberar sem orientação soa como abandono.

Experiências internacionais ajudam a apontar caminhos. O recuo sueco iniciado em 2024 ensinou que o cérebro precisa de alfabetização sólida no papel antes de enfrentar o caos digital. Projetos no Reino Unido e no Canadá utilizam a inteligência artificial como apoio para provocar perguntas. 

Iniciativas pontuais no Brasil permitem o uso da ferramenta, mas exigem que o aluno critique, corrija e justifique a resposta gerada. Avalia-se o processo, não a aparência de aprendizado.

A lentidão do Congresso Nacional em enfrentar de forma clara a regulamentação da inteligência artificial na educação básica agrava o cenário. O Marco Legal da Inteligência Artificial (IA) avança sem tratar a escola como prioridade. A omissão política amplia a distância entre quem aprende a pensar e quem apenas executa tarefas.

Manter a pedagogia da decoreba em 2026 não é conservadorismo. É negligência estatal. Quando a escola insiste em testar aquilo que a máquina responde melhor, pratica um estelionato educacional. 

A educação não é uma disputa de velocidade contra o processador mais rápido. É um projeto civilizatório. Em 2026, a escola que apenas testa a memória ensina seus alunos a falhar. A escola que ensina a questionar e agir com ética prepara o país para governar a tecnologia, e não ser governado por ela.


Sobre o autor: Régis de Oliveira Júnior é jornalista formado pela Unisc, especialista em Inteligência Artificial pela ESPM Tech e vencedor de 16 premiações nacionais. Atuou em gestão pública como secretário de Saúde e de Comunicação, interventor em hospitais públicos e consultor no Ministério de Minas e Energia, na Assembleia Legislativa e em prefeituras do RS e de MG.