Venâncio Aires - Nada que já existe pode ser desinventado. Não sei se essa palavra existe, pois o corretor automático do Google acaba de sublinhá-la em vermelho. Enfim, vou mantê-la. Na época em que fiz o vestibular, existiam 245 mil palavras na língua portuguesa; hoje, já são 400mil, significando que sempre é possível inventar palavras, para horror dos linguistas mais ortodoxos.

Estou escrevendo isso pensando nos inconformados que não aceitam muitas das mudanças que o mundo atual nos apresenta. Você, que tem saudade de uma época em que havia uma certa elegância nas falas, no vestuário, nas maneiras; você, que chamava as pessoas mais velhas de senhor e senhora, que respeitava os professores; que não soltava palavrões sem necessidade no meio das frases; que sabia o jeito certo de se vestir para cada ocasião ou lugar, sem que isso fosse um luxo; que não ofendia ninguém com suas opiniões mal formuladas; que não dirigia veículos de descarga aberta e, ainda, dando aqueles tiros que assustam pessoas e cachorros e acordam bebês de madrugada; enfim, você, que recebia e praticava a educação no convívio social e comunitário, certamente não se conforma com a vulgaridade e as brutalidades do mundo de hoje. Assusta-se com a violência do trânsito, com a falta de comportamento nas escolas onde alguns professores apanham dos alunos, muitas vezes apoiados pelos pais, e também onde alguns professores maltratam criancinhas nas creches. Apavora-se com as histórias verídicas de pais ou mães descartando filhos inertes em malas e sacolas.

Para quem lê comentários das redes sociais, a incredulidade e o pavor aumentam. Através de assassinatos cruéis da língua portuguesa, as pessoas tentam transmitir opiniões e julgamentos sumários que, por sua vez, assassinam o bom senso, a racionalidade e, não raro, revelam mentes necessitadas de tratamento. Se você for uma pessoa sensata, não tente colocar ali a sua opinião, pois será bombardeado por todos os lados.
Na criminalidade, nem vou falar.

Então, meu leitor, convença-se: nada mais será como antes. Adapte-se. Tente viver no seu mundo, mas não se isole, procure outras pessoas com quem possa dialogar, busque informação e leitura confiáveis, selecione filmes e séries que tenham valor artístico, ouça músicas mais antigas que tenham ainda harmonia e alguma poesia nas letras, sem grosserias e vulgaridades.

Porém, lembre-se de que, apesar de tudo isso, viver ficou menos trabalhoso, há mais conforto nas casas que ficaram mais bonitas e funcionais, a Ciência evoluiu muito, a expectativa de vida subiu. Se você está preocupado com o fim do mundo, relaxe: isto virá, mas não vai ser agora. Vai acontecer por conta das ações humanas, talvez já tenha acontecido antes e a gente nem sabe e vai repetir tudo de novo.