Venâncio Aires - Neste sábado, estou completando 51 anos de formado em medicina. Escrevo estas linhas na perspectiva do nosso encontro de turma que, salvo imprevistos, deve estar ocorrendo em Vacaria, onde nos espera o nosso colega Osvaldo Bortolon, prestigiado pediatra da cidade.

Dos 44 médicos e médicas diplomados naquele distante 6 de dezembro de 1974, treze já partiram, fora alguns de quem não temos notícia. Aliás, o próprio Bortolon foi dado como morto durante a pior fase da pandemia da Covid. A triste notícia foi postada no nosso grupo de WhatsApp. Imediatamente todos manifestaram ali os pêsames e a tristeza de ter- se perdido um colega muito estimado. Seis meses após, me liga um advogado, amigo de Vacaria dos tempos da faculdade.

Lá pelas tantas, eu menciono a morte do Bortolon. “Como assim”, me disse ele, “o doutor Bortolon está vivo, o vi há duas semanas.” Depois de me certificar de que desta vez não havia engano, postei com euforia no grupo de Whats a notícia da “não morte” do colega. Para minha surpresa, ninguém fez nenhum comentário, nem mesmo para retirar os pêsames. Suponho que não quiseram se arriscar num novo erro. A verdade se confirmou quando o Osvaldo apareceu no nosso encontro dos 50 anos de formatura e não parecia nada morto.

É claro que tivemos de contar a ele que, agora sim, podíamos exumá-lo da lista dos falecidos. Para comemorar a ressuscitação, ele prometeu organizar o encontro dos 51 anos.

Há muitas diferenças na medicina daquela época comparada com a que se pratica hoje. Já nem falo na tecnologia e na descoberta de novos tratamentos que, obviamente, acompanham a evolução dos tempos.

Refiro-me mais ao comportamento e às atitudes profissionais dos médicos atuais. A nossa formação antiga não nos permitia limitar tempo, dia ou hora para atender pacientes, não poupava noite de sono nem feriados consagrados. A medicina é um sacerdócio, dizia-se. Portanto, exercê-la era sempre a primeira opção em detrimento de qualquer outro compromisso. Um conhecido médico de Venâncio estava de sobreaviso na noite de núpcias e, que se saiba, cumpriu a dupla jornada. Já os médicos de hoje, que existem em muito maior número, limitam seu trabalho em horas contratadas e, no restante do tempo, dedicam-se ao lazer, à família e a outras atividades. Para as novas gerações, não existe a medicina em tempo integral.

Estarão certos eles trabalhando assim? Serão mais felizes e realizados do que nós, veteranos, que nem sabemos escolher a hora da aposentadoria? Viverão mais do que nós trabalhando menos? O tempo dirá. Quando encontro os velhos colegas, não vejo em nenhum deles qualquer suspiro de arrependimento pela vida trabalhada e trabalhosa.