O feriado de terça, 20 de janeiro, data consagrada ao santo padroeiro do município, São Sebastião, foi a data em que nos deixou o ex-prefeito Almedo Dettenborn, que faleceu as 14h no hospital São Sebastião Mártir, aos 85 anos. Ele enfrentava sérios problemas de saúde desde uma queda que teve na escada de casa, em janeiro de 2017, na véspera da Festão de São Sebastião Mártir. E desde então convalescia com sequelas resultantes da queda.

No dia de encerramento da Festa do Bastião, a morte de Almedo criou um misto de consternação e lembranças do seu legado como prefeito, por três mandatos em Venâncio Aires. Almedo, natural de Vale Verde, veio para Venâncio como jogador profissional do Guarani no final dos anos 60. Depois virou professor e diretor da Escola Cenecista Professor José de Oliveira Castilhos. Em 1976 se elegeu vereador pelo PMDB, mas assumiu a secretaria Municipal de Educação, Desporto e Turismo, no quarto mandato do prefeito Alfredo Scherer (PMDB), onde virou referência e se elegeu prefeito em 1982. Em tempos onde não havia reeleição, Almedo se elegeu novamente em 1992 e depois em 2004. Quando foi possível a reeleição, perdeu para o seu vice, Airton Artus (PDT), em 2008. Foi candidato a deputado estadual em 1998, e com 24 mil votos, ficou na suplência.

Foto que representa muito o Almedo popular, carismático. Foi na vitória na eleição de 1992, para o segundo mandato, com Celso Artus como vice. (Foto: Arquivo Folha do mate)

Letícia Wacholz comandou um programa especial na Terra FM na noite de terça, onde participei, ao lado dos ex-prefeitos Airton Artus e Jarbas da Rosa e o presidente da Câmara de Vereadores, Nelsoir Battisti. Falamos do legado político/administrativo que Almedo deixa. E fomos unânimes em apontar três grandes eixos.

Um na área esportiva, onde ajudou as comunidades do interior a construírem ginásios de esporte, que deram lugar a muitos salões de baile. Com os ginásios, as festas e os bailes continuavam a ser realizados, e os jovens tinham um local para prática esportiva. A filosofia de Almedo desta iniciativa ser uma forma de ajudar a ‘segurar’ jovens no interior. Almedo também criou, em 1982, a Assoeva, entidade para organizar os campeonatos de futebol no município, que até então era tarefa do Conselho Municipal do Desportos (CMD).

Outro eixo importante é do desenvolvimento industrial. Almedo assumiu em 1983 e a Venax, maior empresa do município, com 800 funcionários faliu. Almedo iniciou um movimento de industrialização e começou a trazer fábricas de calçados do Vale dos Sinos para Venâncio, com incentivos de aluguel, para ocupar mão de obra. Vieram Strassburger, Umbro , Musa, Orquídea e outras. E em 1985, com incentivo financeiro da Prefeitura, a Metalúrgica Zonta, de Esteio, adquiriu a massa falida de Venax em leilão e reabriu a empresa, sob liderança de Walter Bergamaschi. Em 1994, no seu segundo governo, Almedo incentivou a criação da CTA Continental Tabacos, quando a Universal Laef anunciou o fechamento da unidade Fumossul em Venâncio, que no final acabou sendo mantida. E incentivou muitas outras empresas.

O terceiro grande eixo foi ver desenvolvimento na criação do Parque Municipal do Chimarrão e da Fenachim. Em março de 1984, Almedo tentou reaver a área de 27 hectares do aeroporto para criar o Parque Municipal do Chimarrão, mas não teve receptividade do governador Jair Soares. Resolveu então comprar uma área de 13 hectares da família Costa, no Acesso Leopoldina, em maio de 1985. Estive lá com ele quando, visualizando a área, indicou para Ademar Biguelini, então patrão do CTG Erva-mate, onde seria a pista e sede do CTG atrás do capão de mato e ao lado a Capesva, que poderia fazer um açude no banhado existente. Indicou para Ceceu Bogorny, presidente do Moto Clube e Danino Heinen, a lomba onde seria a pista da motocross (a primeira, onde hoje é a pista de kart). Logo à frente de onde estava, indicou que seria um restaurante, o Galpão Morada Velha, e do lado direito da entrada o pavilhão de exposições, que serviria também de ginásio de esportes fora da Fenachim. Apontou também a Avenida de entrada, com um pórtico. “Anotou tudo”, perguntou Almedo ao engenheiro Clacyr Marquetto e o arquiteto Fernando Luzzi Cardoso que projetaram as obras. Estavam lá também o secretário de Administração, Clóvis Henn e o vereador Elocy Lauermann dos Santos, o Branco. Um ano depois, em maio de 1986, era realizada a 1ª Festa Nacional do Chimarrão (Fenachim), evento que impulsiona Venâncio no país.

Convivi com toda carreira política de Almedo. Especialmente no primeiro governo, era um tempo diferente dos atuais. O prefeito tinha um talão de cheque na gaveta para decidir auxílios. E Almedo era um exímio negociador. Fazia o dinheiro do caixa da Prefeitura render no Overnight” (do inglês “da noite para o dia”), nos tempos do Plano Cruzado, de inflação que chegou aos 30% ao mês. Como definiu o prefeito Jarbas da Rosa no programa especial na Terra FM, Almedo era um visionário. Ele planejava e fazia acontecer, disse o atual prefeito.

Almedo era muito determinado e de personalidade forte, o que lhe rendeu muitos inimigos políticos, mas que o respeitavam pelas suas realizações. Almedo foi o político mais carismático que conheci em Venâncio nestas cinco décadas de Folha do Mate. Ele deixa um grande legado. Ele tomou decisões arrojadas que influíram na vida de todos os venâncio-airenses, como citou Airton Artus no programa da terra FM.

Almedão, como era chamado, faleceu no dia de São Sebastião. Que o nosso santo padroeiro o projeta. Nós, família e comunidade, sob a benção do Bastião, ficamos com o legado que ele deixou.