
Risadas, abraços, cuidados e muito amor. Esse é o astral da casa do montador Nestor Carlos Dapont, 48 anos, e da aposentada Neila Loreci Nunes, 49 anos. Pais de Weslen Samuel Nunes Dapont, anos, Matheus Nunes Dapont, 19 anos, e Carlos Alexandre Dorneles, 34 anos, o casal já passou por momentos memoráveis, porém nem todos foram de felicidade.
A história de Neila e Nestor começou ao acaso, quando um cruzou a vida do outro. Ela, que tinha nos braços um filho pequeno, fruto de outro relacionamento, encontrou nele um suporte e um amor simples e verdadeiro. Nestor adotou Carlos Alexandre e o pequeno o adotou também. Viraram pai e filho. Com o passar do tempo, Matheus chegou para tornar a felicidade que já era grande, em uma sem tamanho. Entretanto, até a sua chegada, as coisas não foram fáceis. Matheus nasceu. Veio ao mundo com um choro intenso, de quem sabe que as coisas não serão fáceis, mas podem ser bonitas. Com ele, veio a notícia de que a mãe, aquela que tanto fez para o ter, não poderia mais engravidar. Um choque, uma tristeza profunda, mas que seria compensada de uma maneira inimaginável. Depois de cinco anos, eis que surge Weslen na vida dos quatro. Mas não de uma maneira convencional.
Aposentada, devido a inúmeros problemas de coluna, Neila encontrou na venda de perfumes e cremes femininos uma forma de ajudar na renda familiar e, também, de ocupar a mente. Entretanto, ainda assim, as coisas não andavam fáceis. Depois de conversar com uma conhecida que também vendia os produtos, mas conseguia um lucro maior ao oferecer para as ‘madames ao avesso’ – nome dado para as mulheres que trabalham em casas noturnas – Neila resolveu arriscar.
Foi assim que ela e o filho, até então mais novo, rumaram para um desses locais, mais afastado, em um dos bairros de Venâncio Aires, e conheceram aquela que lhe daria um grande presente. Ao chegar no local, Neila deu de cara com uma grávida e ainda brincou com o filho pequeno ao encostar na barriga da mulher.
Senti um arrepio. E ainda hoje, tantos anos depois, sinto ao lembrar desse momento.
Depois do afago na barriga, Neila foi questionada pela desconhecida.
Ela me perguntou se eu não conhecia ninguém que cuidava de crianças. Eu disse que conhecia, que era eu mesma.
Depois de catorze anos, a aposentada explica que ainda não sabe porque respondeu isso para a desconhecida, afinal, nunca tinha cuidado de filhos de outras pessoas.
Convivência
Foi a partir desse momento que as vidas de Neila e da então gestante se cruzaram e nunca mais se separaram. Conversando periodicamente, as duas combinaram que quando a criança nascesse, Neila cuidaria dela ao longo do dia, para que, dessa forma, a mãe pudesse continuar trabalhando. Porém, não foi isso o que ocorreu. Em certa noite, um acontecimento mudou, de fato, a vida de Neila, Nestor e do pequeno recém-nascido. A polícia, ao fazer uma vistoria na casa noturna, encontrou o bebê e a mãe, que ao ser questionada, não soube informar o endereço de Neila e, com isso, o pequeno foi encaminhado para a Casa de Passagem. Ao ficar sabendo do ocorrido, a aposentada se encaminhou até a delegacia para maiores informações.
Ao chegar lá, Neila foi comunicada que como a criança havia sido encaminhada para a Casa de Passagem, a responsabilidade agora era do Serviço Social do município. Com isso, ela e o marido foram ao local e comunicaram que gostariam de adotar o pequeno. Depois de muita conversa, coração apertado e um amor que só crescia, Neila e Nestor entraram na justiça para pedir a guarda de Weslen.
Processo
Quando Weslen tinha dois anos, o casal conquistou a guarda provisória. Com três anos, veio a guarda definitiva. E a partir daí, começou o processo para explicar ao menino sua história e o fato dele possuir duas mães e dois pais. Nestor destaca que desde que Weslen começou a entender as coisas, sua história foi sendo explicada.
Contávamos detalhes da vida dele, mas sempre ressaltando o quanto ele era especial e o quanto amávamos ele.
Outro ponto que o casal tomou cuidado, foi na hora de educar o pequeno. Segundo eles, não houve diferenciação ou favorecimento pelo fato dele ser adotado. Dessa forma, Matheus e Weslen foram criados com os mesmos valores e regras, aprendendo que sangue era apenas um detalhe.
Em 2014, mais uma conquista para o casal e, também, para Weslen, que sonhava com esse dia. A mudança do nome e o registro oficial de pertencimento a uma família que já possuía seu amor, carinho e gratidão. Para Neila e Nestor, adotar Weslen não foi fácil, já que a situação financeira era difícil. Segundo Nestor, as dificuldades foram compensadas a partir do momento que ele aprendeu a falar e soube expressar através de pequenas palavras, como mãe, pai, mano e amor, a gratidão que também sentia.
Neila e Nestor são exemplos. Para os filhos, para os familiares, amigos e conhecidos. Para eles, os três filhos são únicos e cada um possui o seu jeito especial que completa e faz com que a família seja unida e amorosa.
O sangue é apenas um combustível. O que une as pessoas é o amor.
Lembrança

Filho do meio e mais novo morando em casa, Matheus tinha cinco anos quando Weslen chegou. O sentimento, no início, era de confusão, mas o amor e o carinho por aquele ser tão pequeno, logo apareceram. Depois disso, as birras e o companheirismo tomaram conta e a rotina dos dois, assim como da família inteira, teve mais cor e diversão.
Weslen passou a ser o filho mais novo, Matheus o do meio. Além disso, coube a ele ser exemplo de boas atitudes e de transmitir valores já aprendidos para Weslen. Hoje, mais do que irmãos, são amigos, companheiros e exemplos de que o amor deve ser fortalecido todos os dias.
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Em 2015, o caderno Mensagens de Natal, da Folha do Mate, emocionou os leitores com histórias de adoção. São pais e filhos que contam seus relatos, e mostram que a verdadeira mágica natalina é o amor.