Maria teve três filhos, quatro netos e três bisnetos, sendo que um está por nascer (Foto: Cassiane Rodrigues/Folha do Mate)

Os três dígitos na idade chegaram e, com ele, o agradecimento por uma trajetória marcada por muito trabalho. Maria Stölben, conhecida pelos familiares e vizinhos como Mari, completou 100 anos no dia 3 de outubro. A mãe da Leocádia, do Fredolino e da Sibila (já falecida), é muito conhecida nos arredores de onde vive, em Travessa São José.
Neta de um alemão vindo do país de origem ainda na infância, Maria não fala português. Os familiares dizem que ela entende um pouco, mas fala só alemão.

Natural de Boa Esperança, interior de Cruzeiro do Sul, Maria foi morar na infância com os pais e sete irmãos na localidade onde ainda vive. Foi o pai dela, Albino, que doou o terreno para a construção da Capela São José de Linha Travessa. “A gente ia de charrete até a matriz de Venâncio nas missas e meu pai queria que tivesse igreja mais perto”, diz. Outros moradores se uniram pela construção da capela e hoje são celebradas missas a poucos metros da casa de Maria, que é muito religiosa.

Ela lembra que os cavalos eram presos em árvores que tinham do lado da Paróquia São Sebastião Mártir, enquanto a família acompanhava a missa.

Maria começou a trabalhar muito cedo com os pais. Ela lembra que a mãe era muito doente e, como irmã mais velha, ajudava na casa e na produção de milho, feijão e tabaco da família. “Meu pai ia a cavalo até Santa Cruz fazer as entregas de fumo”, recorda.

Na adolescência, Maria começou a namorar com Osvaldo, com quem casou anos depois. Durante o período de namoro, o casal ficou três anos sem se ver. Foi quando ele foi servir ao Exército e, na época, ficou à disposição para a Segunda Guerra Mundial. “Ele ficou de prontidão, não chegou a ir para a guerra. Mas muitos contam que quando voltou deu um beijo na irmã da Mari por engano, nem conheceu a namorada”, brinca Terezinha Stölben, nora de Maria.

Maria e Osvaldo casaram anos depois, depois de trabalhar muito a fim de juntar dinheiro para poder começar uma vida a dois.

O marido da centenária faleceu em 1997, aos 76 anos. Hoje, ela vive junto com o filho Fredolino e a nora, Terezinha. Quem também reside com a família é Ana, a irmã mais nova de Maria, que está com 85 anos.

SAÚDE PRA DAR E VENDER

Até pouco tempo, Maria caminhava e ajudava nos afazeres de casa. Ela não conseguiu mais andar depois que fraturou a bacia em uma queda em casa.

Aos 100 anos, diz que o segredo da longevidade está em trabalhar muito. “Trabalhei minha vida inteira e se pudesse continuava trabalhando agora”. Aipim, batatas e demais produtos colhidos na horta de casa estão sempre no seu prato, e não recusa carne de porco.

A rotina começa pouco depois das 6h, quando Maria e a irmã tomam café. Depois, descansa até 10h, quando novamente levanta para um lanche. Durante boa parte do dia, passa deitada, mas muitas vezes perde o sono de madrugada. “Ela não assiste à televisão, diz que estraga os olhos”, conta Terezinha.

Comunidade se reúne para abraçar dona Maria

Familiares e a comunidade de Travessa São José se reuniram para comemorar os 100 anos de Maria. “Nossa vontade era dar uma festa para todos, mas não tínhamos como pagar. Então dei a ideia para que cada um levasse alguma coisa”, conta Terezinha.

Ela conta que, no início do mês, falou sobre a comemoração em uma missa na comunidade, dizendo que Maria iria completar 100 anos e queria que a festa fosse com todos com quem convivia. Para isso, pediu que cada um levasse um lanche no pavilhão comunitário na tarde do dia 13 de outubro.

Como em anos anteriores, a aniversariante não foi muito exigente. “Nos aniversários ela sempre disse que não precisava de bolo, só queria uns foguetes para que os vizinhos soubessem que ela estava de aniversário”.

Maria ganhou um quadro e um bolo com a imagem da Capela São José no dia da festa (Foto: Divulgação)

Nos dias que antecederam a festa, estava ansiosa para a escolha da roupa que ia usar. “Ela disse que não valia a pena comprar um sapato porque usa pouco, queria pedir emprestado para alguém”, conta Terezinha. A família comprou um sapato e um vestido e Maria fez mais um pedido. Ela pediu uma coroa para usar no dia da festa. Uma tiara com pedrarias brancas que imitavam uma coroa de princesa foi comprada para que Maria pudesse comemorar os 100 anos ‘de reinado’. “Ora, enfeitar uma velha senhora”, diz Maria, com um sorriso tímido.
Mais de 300 pessoas participaram da comemoração, uma homenagem simples e cheia de significado a uma figura tão conhecida pelos moradores da localidade.

  • Impressões de repórter
    Natural de Cachoeira do Sul, moro em Venâncio Aires há quatro anos e conheço muito pouco do interior do município. Apenas duas ou três vezes me arrisquei a ir sozinha para pautas mais distantes da cidade. Por insegurança, pedi o auxílio do colega Edemar Etges para ir até a casa da dona Maria na manhã de ontem.
    Com certeza foi a decisão mais acertada dos últimos tempos. O caminho até a casa da centenária era fácil de encontrar, porém, a entrevista não seria possível sem meu colega ao lado. Isso porque Maria fala alemão e eu entendo absolutamente nada da outra língua. O colega que ia me ajudar a chegar até o local, foi meu tradutor. Terezinha e Edemar perguntavam a dona Maria, e ele me traduzia suas respostas.
    Fui para a guerra sem munição no fuzil. Se a matéria-prima para o trabalho jornalista é o diálogo, como fazer se a conversa não é possível? Minha sorte é que um soldado nunca está sozinho na guerra. E, neste caso, meu amigo combatente falava somente alemão até os sete anos. Aprendizados de hoje para uma vida inteira.

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