Imagem feita a partir de um drone mostra a dimensão da enchente que atingiu Vila. ( Alvaro Pegoraro/Folha do Mate)
Imagem feita com um drone mostra a dimensão da enchente que atingiu Vila Mariante nesta semana (Foto: Tobias Dresch/ Global Tecnologia)

A manhã de sol da sexta-feira, 10, trouxe um pouco de alívio aos moradores de Vila Mariante e localidades vizinhas. Depois de cinco dias de chuvas e inundações – que trouxeram momentaneamente a falta de luz e água da Corsan -, as águas que desembocaram no rio Taquari, vindas principalmente da serra gaúcha, perderam força e o nível começou a baixar. Assim que o asfalto da ERS-130 foi reaparecendo, surgiram os estragos e foi possível ter uma noção da intensidade da água e dos prejuízos que ela deixou.

Acostumado com a força da natureza, o aposentado Gelceu Ribeiro era mais um morador que começava o trabalho de limpeza para voltar à normalidade. Aos 78 anos, nasceu e vive até hoje na área central da Vila, juntamente com a esposa e um filho. “Nasci em 1942 e com certeza esta foi a maior enchente. Já tiveram outras, mas nenhuma chegou perto desta. Nunca vi nada igual”, assegurou, enquanto contabilizava as perdas.

Em um levantamento inicial, o aposentado viu que perdeu geladeira, fogão a gás, sofá, cama, gêneros alimentícios e muitas outras coisas. Ele também perdeu alguns frangos, que não conseguiram escapar da enchente. “Com certeza passa de R$ 5 mil de prejuízos”.
Precavido, seu Ribeiro construiu uma casa em local mais elevado, na avenida Beira Rio, com espaço para guardar veículos. “Já fiz isso aqui, para fugir das cheias, mas desta vez a água chegou até aqui em cima. Adiantou um pouco, mas não muito”, observou.

O aposentado, que possui outra casa, nas margens do rio Taquari, garante que em cheias anteriores, a água nunca passou da varanda. “E olha aqui onde veio desta vez”, mostrou, enquanto apontava para as marcas na parede de madeira, a uma altura de aproximadamente um metro.

Para a pesquisadora Sofia Royer Moraes, PHD em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental, a maior cheia da história foi em 1941 (29,92m), seguida da enchente de 1956 (28,86m) e 1946 (27,40m). A quarta maior, segundo dados do Porto Fluvial de Estrela, é esta do dia 8 de julho de 2020, quando a medição chegou aos 27,39m.

Aos 78 anos, Gelceu (ao lado da esposa), diz que é a maior da história (Foto: Alvaro Pegoraro/Folha do Mate)

Danos no asfalto

Quem circulou pela Vila Mariante viu que o asfalto da ERS-130 foi destruído. Em alguns trechos ele sumiu e surgiram grandes buracos. Nas grades das casas, muitos galhos e sujeira acumulada. Em alguns locais, a força da água derrubou muros e destruiu pequenas hortas e plantação de flores.

O cenário de destruição se via em toda a extensão da Vila e atingiu outras localidades, como Santa Mônica, Itaipava das Flores e Linha Chafariz, que ontem pela manhã ainda estavam inacessíveis.

Ao lado da ‘santinha’ (imagem de Nossa Senhora dos Navegantes), na rampa que dá acesso ao rio Taquari, um grupo de amigos alternava a limpeza da casa e de um bar com o início de um churrasco, preparado dentro de uma churrasqueira de tonel.

Em meio à limpeza, grupo de amigos aproveitou para fazer um churrasco. (Foto: Alvaro Pegoraro)
Em meio à limpeza, grupo de amigos aproveitou para fazer um churrasco (Foto: Alvaro Pegoraro)

“Temos que agradecer que estamos vivos. O que é material a gente consegue recuperar”, comentaram.
“Nasci em 1942 e sempre morei aqui e nunca ví uma enchente como esta. Lembro de outras, mas nenhuma foi tão forte.”

GELCEU RIBEIRO
Aposentado

Moradores foram surpreendidos pela cheia

As previsões da Defesa Civil, de que haveria uma grande cheia, acabaram se transformando em uma das maiores enchentes da história do Vale do Taquari. As fortes chuvas que começaram na madrugada do domingo, 5, antecederam a cheia e entre a noite da quarta-feira, 8, e a manhã da quinta-feira, 9, o nível do rio Taquari ultrapassou os 15 metros, atingindo todas as casas e edificações da sede do 2º Distrito e localidades vizinhas, como Linha Picada Nova, deixando muitas famílias desabrigadas.

Na manhã da sexta-feira, 10, a família do marinheiro de máquinas, Sidnei Guedes, 50 anos, usou muita vassoura, rodos, panos e produtos de higiene e limpeza para limpar sua casa. No dia anterior, ele, a esposa, a cunhada e seus dois cães foram resgatados pela embarcação do empresário Gérson Schwingel, que auxiliava o Corpo de Bombeiros e a defesa Civil na retirada das famílias.

Morando há 33 anos naquele local, Guedes disse que nunca viu algo parecido. “É a pior enchente que já vi”, declarou o marinheiro, que passou a noite na casa de um filho, em Linha Picada Mariante. Na sua casa, além de algumas perdas, o muro caiu.

Outra família retirada de casa pelo Corpo de Bombeiros é a do pensionista Ivo Noll, 62 anos. Morador da Travessa da Olaria há cerca de 30 anos, ele garante que esta é a maior enchente que presenciou. “Moro aqui a uns 30 anos, mas conheço o Mariante desde que nasci”, argumenta.

Amparado por uma muleta, disse que perdeu tudo, inclusive o rancho que havia comprado recentemente, com o dinheiro da pensão que recebe. Além dele, os bombeiros retiraram de casa sua esposa, filhos e netos. “Moramos em três casas e tivemos que sair”, mencionou o pensionista, sem saber ao certo aonde iriam passar a noite da quinta-feira.

Na quinta, família de Guedes foi obrigada a sair de casa (Foto: Alvaro Pegoraro/Folha do Mate)
Nessa sexta-feira, já de volta ao lar, foi o momento de limpar tudo e recomeçar (Foto: Alvaro Pegoraro/Folha do Mate)

Nada igual

Para o aposentado Walmor Machado Mariante, que reside na localidade de Linha Itaipava das Flores há 30 anos, esta é a maior enchente que presenciou. “As de 2001 e 2011 foram grandes, mas não como esta”, afirmou. Há outros registros históricos de grandes cheias, e os mais antigos recordam da que aconteceu em 1941, quando a maioria das casas ficou submersa.

Na inundação de 12 de maio de 1941, choveu um acumulado de quase 700 milímetros na região dos Vales do Taquari e Rio Pardo. Isso fez transbordar o rio Taquari, deixando cidades como Lajeado e Estrela debaixo d’água.

Helicóptero

Na tarde da quinta-feira, 9, a Defesa Civil do Estado sobrevoou a região com um helicóptero da Brigada Militar, fazendo o resgate de alguns moradores que estavam ilhados. Também entregou 28 colchões, 28 travesseiros, 65 cobertores, mil máscaras, 60 frascos de álcool em gel, 60 frascos de sabonete líquido, 20 protetores faciais e 200 luvas descartáveis para as pessoas que estavam abrigadas no ginásio de esporte de Linha Mangueirão.

Entre a quinta e a sexta-feira, 75 pessoas passaram a noite naquele local, que estava preparado para receber os desalojados. Além de água e refeições, todos dormiram em colchões – respeitando os distanciamentos – e receberam roupa de cama.

Corpo de Bombeiros de Cachoeira do Sul e Rio Pardo no resgate das famílias (Foto: Alvaro Pegoraro/Folha do Mate)

Venâncio-airense pesquisou sobre as cheias do Taquari

Radicada atualmente em Porto Alegre, a venâncio-airense Sofia Royer Moraes é uma especialista quando se fala em inundações provocadas pelo rio Taquari. Engenheira Ambiental, doutoranda em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental, ela intitulou o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Mapeamento das áreas e edificações atingidas pela inundações do rio Taquari, na área urbana de Lajeado. Para isso, atualizou a série histórica de inundações para o município de Lajeado, por meio de dados obtidos pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), no Porto Fluvial de Estrela, no período de 1940 até 2015. A maior cheia registrada, ressalta Sofia, ocorreu em 1941, há 79 anos.

Em seu trabalho, Sofia analisou o tempo de retorno das inundações (análise estatística quanto a recorrência nos níveis de inundação), as cartas de inundação por nível e tempo de retorno e o mapeamento das edificações suscetíveis a ocorrência dos eventos de inundações em Lajeado/RS.

Foto registrada na enchente em 1956, na área central de Lajeado (Foto: Casa de Cultura e Biblioteca de Lajeado/Divulgação)

“O trabalho resultou em alguns artigos publicados e premiações, o que ressalta a importância dos municípios que sofrem com inundações ou outros desastres, de terem mapeados suas cidades enquanto áreas suscetíveis a ocorrência destes desastres”, explica a pesquisadora.

Após o TCC, revela Sofia, “ganhei uma bolsa de mestrado na Ufrgs, dentro do Programa de Sensoriamento Remoto. Segui na sequência para o doutorado, atualmente financiado pelo CNPQ, IPH (Instituto de Pesquisas Hidráulicas) da UFRGS, em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental e sigo estudando inundações, com foco, hoje, em eventos extremos de cheias, como a de 1941”, argumenta.

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