Comissão de Emancipação de Palanque comemora 20 anos

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Foi tudo muito rápido e, em poucos dias, em abril de 2001, as comunidades de Travessa São José, Grão-Pará, Herval e Palanque já tinham o mesmo discurso ensaiado: era hora de tentar novamente. Com a aprovação individual das comunidades do entorno do barro vermelho (60 quilômetros quadrados), era preciso oficializar em assembleia.

Coincidência ou não, ironia ou não, ela aconteceu na noite de 11 de maio (quando Venâncio comemorava 110 anos de emancipação de Santo Amaro). Cerca de 500 pessoas estiveram no ginásio da comunidade São Martinho para tornar realidade um sonho que não era tão novo assim: a emancipação. “Era feriado, oportunidade de reunir todos”, lembra o presidente da Comissão de Emancipação de Vila Palanque, Sérgio Mees.

No início dos anos 2000, o Rio Grande do Sul viu surgir um novo movimento emancipacionista, quando a Procuradoria-Geral do Estado deu parecer favorável à continuidade dos trabalhos, garantindo a validade da legislação estadual para realizar emancipações. Assim, foi crescendo o número de pedidos na Assembleia Legislativa e, na região de Palanque, que então atendia aos critérios estabelecidos (como ter mais de 2,5 mil habitantes), o olho brilhou.

Quando da formação do grupo, Eunice Heuser e Gilberto Weber (primeiros prefeitos de Mato Leitão e Passo do Sobrado, respectivamente) também foram convidados para falar à comunidade sobre os processos pelos quais passaram, como dos plebiscitos de 1991 (veja páginas 22 e 23). Depois disso, viagens a Porto Alegre e Brasília eram constantes para os integrantes da comissão. “Tudo era muito burocrático e precisávamos comprovar diversas informações. O João Carlos Reckziegel, secretário na época, foi um dos que mais andou”, relata Mees.

Foto: Arquivo pessoal

Enfraquecimento

Os movimentos no Rio Grande do Sul (que chegou a ter mais de 120 municípios envolvidos) seguiram firmes nos seus propósitos na primeira década do século XXI. Encontros nacionais em Brasília e por aqui a efetivação da Associação Gaúcha de Apoio às Áreas Emancipandas e Anexandas (Agaeas). Uma reunião, inclusive, aconteceu em Palanque.

Mas, as novas determinações feitas ao longo do tempo pelo Governo Federal, aumentando exigências e critérios, ou mesmo suspendendo novos ingressos, fez o movimento perder força. “Me arrependo de não ter peitado mais em algumas situações. Mas tudo depende dos deputados e passa pelo interesse político”, considera Mees.

História

Como relatado no início, a história de vislumbrar o 6º Distrito como município independente não é algo tão ‘recente’ assim. Oficialmente, os primeiros lotes na região foram divididos em 1892, há quase 130 anos, e as principais famílias eram Hinterholz, Arenhardt, Immich, Janisch e Krämer.

Desde então, a localidade cresceu e outras duas famílias tiveram importante participação no desenvolvimento da região: os Scherer (ervateira) e os quais são a origem de Alfredo (prefeito por quatro mandatos) e Gleno (ex-deputado estadual); Glauco (ex-prefeito) e Rogério (ex-vereador). Alfredo, Glauco e Rogério já são falecidos. Além dos Reckziegel (comércio e tabacaleira).

“Palanque já era grande há muito tempo e se fala em emancipação desde os tempos do Ricardo [marido de Frida Reckziegel, a qual dá nome à escola estadual]. Na década de 1970, por exemplo, tínhamos a Reckziegel SA, fumageira com mais de 200 funcionários”, lembra a professora e advogada aposentada Noely Sausen Stein, atual secretária da Comissão de Emancipação.

Em 1991, quando outras localidades de Venâncio e municípios próximos iniciaram o movimento pelo desmembramento, Palanque pensou que era hora de se mexer. “Mas como Mato Leitão foi logo iniciar as tratativas em Porto Alegre, pensamos que dificilmente o prefeito [Glauco Scherer], iria aceitar mais uma localidade tentando a emancipação”, conta Noely.

“Palanque era muito forte economicamente, dava muito retorno para Venâncio. O Glauco não ia liberar. Então decidimos não ‘peitar’ e a ideia adormeceu naquele momento. Mas reavivamos tudo em 2001, com a criação da comissão. A emancipação não veio, mas ela sempre seguirá sendo o principal objetivo de manutenção do grupo e o sonho de toda a comunidade”, destaca Sérgio Mees.

Sérgio Mees e Noely Sausen Stein integram a Comissão de Emancipação desde 2001 e guardam fotos e documentos das tentativas de desmembramento (Foto: Débora Kist/Folha do Mate)

E se fosse município?

“Se fosse município, seria diferente. Sempre se pensou em oferecer melhores condições para todos”, afirma Sérgio Mees, ao imaginar o local onde nasceu como cidade independente. O presidente da comissão pondera que, embora a população tenha aumentado – cerca de 4 mil atualmente -, muitas pessoas moram, mas não trabalham em Palanque.

“No anos 2000, muitos empresários vieram aqui. Com a possibilidade da emancipação, tinham interesse de empreender. Talvez teríamos, proporcionalmente, gente morando e trabalhando em mais indústrias aqui. Isso ia melhorar a infraestrutura também. Até hoje, do que poderia ser revertido do IPTU, esperamos por um acostamento no asfalto.”

Em contrapartida, Mees valoriza a força e a diversificação. “Mesmo que os ervais diminuíram bastante, a produção é vasta: gado de corte e leite, soja, trigo, milho, aipim, suínos, aves, tabaco, agroindústrias e prestadores de serviço. E é destaque, como na avicultura, no Herval.”

Numa comparação, a secretária Noely Sausen Stein faz referência ao antigo 4º Distrito de Venâncio, e do qual Palanque fazia parte em 1991. “Quando olhamos para o crescimento de Mato Leitão, uma cidade bonita e próspera, talvez pudéssemos imaginar o mesmo patamar.”

Conquistas

A emancipação segue no sonho, mas alguns pontos concretos tiveram apoio da Comissão de Emancipação. Entre eles, a vinda de um posto da Brigada Militar, em 2007, o qual foi tirado anos depois por falta de efetivo, e a implementação (com trabalho puxado principalmente pela própria escola) do Ensino Médio na Frida Reckziegel.

Hoje, a comissão segue com um evento anual, o baile da galinha com massa, que acontece desde 2001, onde parte do lucro vai para entidades beneficentes de Venâncio e em ações na própria localidade. Neste sábado, 13, haverá um café colonial para comemorar os 20 anos do grupo (o que não aconteceu em maio devido à pandemia). “A comissão segue com um caixa e, se um dia houver um novo movimento concreto, já temos como começar”, destaca Sérgio Mees. Para os encontros mensais da comissão, geralmente tem janta, mas o dinheiro sai do próprio bolso dos integrantes.

Política

Ao longo da história, a região também revelou nomes para a política. Além dos Scherer, houve vereadores eleitos, como Nelson Vogt, Arno e Cláudio Reckziegel, João Jorge Hinterholz, Valdeni de Souza e Djanir Hausen de Oliveira. Atualmente, são três suplentes no Legislativo com origem no barro vermelho: Elstor Hackenhaar, Janete Brandão e Claudio Weschenfelder.

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