Sobre música, influência e o que (não) virá

Bruce Dickinson, o eterno vocalista do Iron Maiden, está no Brasil. Se apresenta hoje, em Brasília. Música? Nada disso. Vai palestrar outra vez na Campus Party, um festival que ocorre em todo o mundo e trata de inovação, criatividade, ciência e entretenimento digital. Não é a primeira vez, nem ao menos neste país: o britânico já palestrou no mesmo evento há cinco anos e em maio de 2018 no VTEX Day, o “maior evento de vendas multicanal da América Latina”. Nesta feita, andou até de Porsche no circuito de Interlagos – com direito a uma bela rodada na curva da Junção.

Aqui no belo recanto do Brasil, Thedy Corrêa foi anunciado, não faz muito, como o patrono da Feira do Livro local. Assim sendo, era natural que sua banda, o Nenhum de Nós, fosse confirmada para tocar no evento, na noite de 24 de agosto. Não é a primeira vez – de ambos –, nem ao menos nesta cidade: o grupo esteve aqui pela última vez há cerca de um ano, no último Festival de Balonismo. E Corrêa não é o primeiro músico a ocupar tal posição: Duca Leindecker o fizera há dez anos. Thedy, ainda, já estrelou, aqui mesmo em Sebastianfield, uma penca de palestras, workshows e similares. Deve saber circular por conta própria, sem sobressaltos, entre ambientes obrigatórios do folclore local, como a Igreja Matriz, o Estádio Edmundo Feix e o cachorrão do Ilgo e da Luiza.

Bem, mas há algum problema com isso tudo? De forma alguma. Pelo contrário, na modesta opinião deste escriba. Há, no entanto, uma sensação de que a música, por si só, vale cada vez menos e não se sustenta pelas próprias forças. Peça a alguém que cantarole uma música do Nenhum de Nós e é razoável que o sujeito invoque Astronauta de Mármore, gravada em 1989. Sobre o Iron Maiden, é preciso ser mais criterioso: há uma carrada de fãs hardcore por aí, capazes de citar até o nome da rua pela qual Dickinson acessou o famoso Hammersmith Odeon, em Londres, para o aclamado show da banda na casa em 1982. Alguém normal, no entanto, não deve citar nada temporalmente além de algo do sensacional álbum Seventh Son of a Seventh Son, lançado somente um ano antes da versão brasileira para o sucesso de David Bowie.

Sim: Nenhum de Nós e Iron Maiden produziram – e muito – nas últimas três décadas, mas não é algo que qualquer desavisado vá lembrar sem fazer força. Não é exatamente um problema para eles, consagrados como são naquilo que fazem – cada um em sua dimensão, logicamente. Preocupa para quem deseja seguir tal trilha musical: como investir na música sem que ela apresente algum retorno apenas e tão somente por seu próprio valor (como se não fosse o bastante)? É possível fazer sua arte chegar às pessoas sem ser preciso agregar alguma neoprofissão duvidosa? Os músicos de amanhã só terão relevância se, em paralelo à carreira, trabalharem como coaches ou influenciadores digitais?

Com toneladas de terabytes, oriundas de décadas e décadas de música, digitalizadas e disponíveis para consumo imediato do público, incentivar a renovação da produção não parece uma prioridade para a indústria. É razoável que, como antes da era das gravadoras, a fonte de renda de artistas brote cada vez menos da venda de música e, em proporção inversa, aos shows. Bem diferente da dificuldade de sustentação do produto – a música – por seu próprio conteúdo. Quando nos damos conta de que o instrumentista mais conhecido do Brasil é um YouTuber raivoso como Nando Moura, é sinal que as coisas não caminham para o lugar certo.

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