Quando se fala em gravidez na adolescência, é comum pensar quase que
exclusivamente nas mães jovens. Mas, e quando os meninos se tornam pais
jovens? Quais os desafios, as responsabilidades e as descobertas desta
tarefa? Qual a importância de discutir a paternidade, quando se fala em
gravidez na adolescência?

Já que, neste domingo, comemora-se o Dia dos Pais, decidimos abordar o tema
nesta edição, a partir dos exemplos do Auriel e do Vinícius, que falam dos
medos, do aprendizado e da alegria de terem se tornado pais na adolescência.
Além disso, eles contam como é a convivência com os filhos. Boa leitura e
feliz Dia dos Pais – ou para seu pai!

Para Vinícius, paternidade chegou junto com a maioridade

Aos 18 anos, junto com a maioridade, Vinícius Gabriel da Rosa, hoje com 20
anos, recebeu a responsabilidade de ser pai. Ele conta que a ex-companheira,
que tinha 15 anos, estava desconfiada da gravidez e, quando fez o teste,
mandou uma foto para ele. “A irmã e a mãe dela buscaram o exame, compraram
um roupinha e levaram para ela, então me mandou uma foto. Eu fiquei uns
minutos tentando processar a informação, não conseguia acreditar e imaginar
como seria dali pra frente, mas sempre apoiei ela.”

Posteriormente, pensando na criação do bebê, Vini foi morar com a menina.
“Queríamos muito que fosse um guri e, meses depois, esse sonho foi
confirmado na ecografia.” A escolha do nome, conforme o pai, foi a parte
mais difícil, mas logo decidiram por Mathias Sell da Rosa. O menino hoje tem
1 ano e 8 meses.

Desde o início da gravidez, ele lembra que conversava com o filho na barriga
da mãe, colocava música e adorava ver ele se mexer. “Ele foi incluído na
família desde a descoberta.”

Mathias nasceu exatamente na data prevista pela ecografia, na manhã de 9 de
novembro de 2018. O pai achava que as primeiras noites seriam difíceis,
pois é assim que muitas pessoas definem a chegada de um filho. “Mas os
primeiros dias do Mathias foram muito calmos, ele não chorava muito, não
fazia plantão, mas qualquer mexida dele eu já pulava da cama”, recorda o
pai.

ROTINA DE PAI

Atualmente, Vini não está mais com a mãe de Mathias, mas o relacionamento
com o filho continua o mesmo. Ele trabalha em Santa Cruz do Sul, mas,
durante a semana, liga todos os dias para o filho e fica com ele quando
possível. Nos fins de semana, tem escala com a mãe. “Sempre que posso, na
semana, pego ele para ficar comigo, normalmente umas duas vezes e nos fins
de semana nos revezamos”, explica sobre a rotina.

Para Vini, estar com o filho é motivo de felicidade. “Dormimos bastante,
olhamos desenho, andamos de bicicleta, brincamos e fizemos bagunça na casa.”
Ele também comenta que, como tem um irmão pequeno, o Vicente Henrique da
Rosa, 5 anos, Mathias e o tio “deixam a casa de pernas para o ar.”

Para Vinícius, pai de Mathias, o amor paterno é o mais puro (Foto: Arquivo pessoal)

MUDANÇA

Para passar mais tempo com o filho, Vini trancou a faculdade quando Mathias
nasceu. Mas percebe que, nesta experiência, ganhou muito aprendizado.
“Quando descobri que seria pai, tive medo, mas depois esse medo some e
começa a ansiedade por querer saber como ele vai ser. Depois que nasce, o
sentimento é inexplicável, pois tudo passa a ser feito para o filho e meu
maior desejo é sempre protegê-lo.”

Ele afirma que o clichê de um ‘pai herói’ realmente é o que ele quer passar
a Mathias. “Mesmo ele sendo bebê, percebo que já segue meus passos, minhas
manias”, reconhece o pai, que sonha em continuar tendo esse bom
relacionamento com filho sempre. “Quero que ele confie em mim plenamente.
Vejo nosso relacionamento como algo que ele pode se agarrar com todas as
forças, sem medo.”

“Virar pai na adolescência é passar do adolescente nem aí, que não tem muito
com o que se importar, para um adulto que começa a pensar diferente, com
maturidade, apreciando mais os simples detalhes da vida.”

Vinícius Gabriel da Rosa – Pai do Mathias

Pai, um sinônimo de companheirismo para Auriel e William

Ao se formar no Ensino Médio, o açougueiro Auriel Everton de Quadros, 31
anos, descobriu que seria pai. Na época, ele tinha 18 anos e a namorada 17
anos. O primeiro momento foi de replanejamento da vida, incertezas e medo. Entretanto, depois que William Rafael Araújo de Quadros, 12 anos, nasceu, o
pai não desgrudou mais do menino.

O relacionamento dos pais não deu certo, mas William ficou morando com
Auriel e os avós paternos. “Por alguns anos, moramos com meus pais. Hoje
moramos perto, porque temos que ajudar a cuidar deles e o William é uma
pessoa que ajuda muito nessa questão”, afirma Auriel.

Ele considera que, com a paternidade, tornou-se mais responsável. “Depois de
me tornar pai, tive que pensar sempre nele em primeiro lugar.”

Sobre ser jovem, na época, ele diz que amadureceu antes do previsto, mas foi
bom. “Logo que cheguei na adolescência, tive um filho, não pude fazer festa,
mas abracei a obrigação de ser pai com muito amor e foi a melhor escolha”,
garante.

AMOR POR CAVALOS

O pai e o filho amam estar em rodeios, pois os dois têm o mesmo hobby: andar
a cavalo e laçar, um gosto que William herdou do pai. “Todo dia, ele ajuda a
cuidar dos cavalos e, desde pequeno, vai para rodeios comigo.”

No entanto, para William poder laçar, o pai exige que ele vá bem na escola.
“Ele também precisa ter responsabilidade, então, para ir aos rodeios,
precisa estar com boas notas, assim pode se divertir nos fins de semana com
o que ele gosta”, destaca Auriel.

É comum ver sempre os dois juntos. Se o filho não está com ele, por outro
compromisso, Auriel estranha. “É ruim, principalmente, ir para rodeios e ele
não ir junto. As pessoas logo perguntam: ‘cadê o William?’, pois já somos
uma dupla conhecida”, brinca. Para William, o relacionamento com o jovem pai
é muito legal, pois eles são amigos. “Não tem como definir nosso sentimento,
é demais”, diz o garoto.

William e o pai dividem a paixão por rodeios

“Foi a minha melhor escolha, pois mesmo sendo um adolescente, acredito que
dei meu melhor desde o primeiro instante que soube que seria pai.”

Auriel Everton de Quadros – Pai do William

William e o pai Auriel dividem a paixão por rodeios (Foto: Arquivo pessoal)

Responsabilidades iguais

É comum ouvir as pessoas falando que ‘a mãe não fez o filho sozinha’ e,
segundo a psicóloga Patrícia Severo, essa é a frase ideal para ressaltar que
gerar um filho é um ato conjunto e assim também deve ser com as
responsabilidades. “Mesmo que não se tenha um relacionamento de casal, é
importante que os dois assumam a responsabilidade e caminhem juntos na
criação da criança”, destaca a profissional.

Se a gravidez for na adolescência, é necessário encarar a nova
responsabilidade e assumir o ato. Para que o medo amenize, Patrícia explica
que é importante fazer um planejamento sobre a rotina do casal, vida
financeira, escolar, profissional e tudo que for envolvido. “Outro fator
importante é fortalecer a rede de apoio, ou seja, ter uma boa relação com os
pais, avós, tios, tias, amigos, todos que possam ajudá-los com o que
precisarem neste novo ciclo”, ressalta.

ABANDONO

A profissional explica que o abandono prejudica os filhos de maneira direta
e indireta, pois afeta também a mulher ou o homem, ou seja, a mãe ou o pai
do bebê, que passa a criar a criança sozinha, e, consciente ou
inconscientemente, as suas preocupações, os anseios, os medos, a raiva e a
tensão podem passar para a criança.

Entre algumas formas que caracterizam o abandono, estão o abandono afetivo e
o financeiro. “Isso pode afetar a personalidade e os medos da criança no
futuro, também.”

“Mesmo que não se tenha um relacionamento, é importante que os dois assumam a responsabilidade e caminhem juntos na criação da criança.”

Patrícia Severo – Psicóloga

Patrícia (Foto: Divulgação)

A relação não deu certo?

A psicóloga Patrícia Severo ressalta que, mesmo se o relacionamento não der
certo, os pais devem manter uma relação saudável, pois este momento de
transformação afetará a vida dos seus filhos. “Existem maneiras de lidar com
isso para minimizar os estragos e administrar os sentimentos, como dar
atenção redobrada aos filhos, fortalecer o diálogo e tentar não entrar em
detalhes sobre o relacionamento a dois. Também é importante não ter disputas
entre os pais sobre o filho, pois isso afeta a criança.”

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